
A megaoperação das forças de segurança do Rio, que deixou mais de 100 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, repercutiu internacionalmente por escancarar um cenário típico de guerra. Com o uso de drones para lançar granadas contra os agentes, o tráfico demonstrou grande resistência para defender os principais quartéis-generais do Comando Vermelho. Ao entrar nas comunidades, os policiais também se depararam com a resistência de criminosos de outras regiões do país, que vieram para o Rio em busca de abrigo nas favelas e passaram a reforçar o “exército” do tráfico carioca, principalmente nas áreas de mata.
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Dos 113 presos, pelo menos 33 eram de fora do Rio de Janeiro, segundo a Polícia Civil. Em um levantamento interno, a corporação identificou a origem de 28 deles: 18 da Bahia, 3 de Pernambuco e 4 do Pará. Outros três foram identificados como vindos de Santa Catarina, Espírito Santo e Maranhão.
Fontes das polícias civis de outros estados afirmam que cada comunidade do Rio funciona de um jeito, mas que os criminosos que buscam refúgio no Rio precisam colaborar com a proteção do território, fazendo “plantões” e exibindo armamentos pesados. Entre os fuzis apreendidos pelas forças de segurança, pelo menos dois tinham a inscrição CV AM (Comando Vermelho do Amazonas) e outro trazia a marca “Tropa de Manaus”.
Um pastor da Penha, sob anonimato, afirmou ser comum a presença desses forasteiros na mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia, localizada no Complexo da Penha. Foi lá que a maior parte do confronto com a polícia aconteceu durante a megaoperação.
— Quem fica na região de mata é o pessoal do Pará, da Bahia, de Goiás e até do Amazonas. Eles ficam de plantão por lá, mas não conhecem bem a região, nem o modo de operação da polícia. Por medo, costumam andar em grupos e acabam virando alvos fáceis — relatou.
A polícia continua realizando identificação dos mais de 100 mortos, então ainda não há informação de quantos são de outras regiões do país. Em entrevista coletiva nesta quarta-feira (29), o subsecretário operacional da Polícia Civil, delegado Carlos Oliveira, afirmou que muitas lideranças de fora já foram identificadas no Rio.
— Temos informações de inteligência de que chefes do crime de outros estados estão vindo para o Rio, instalando-se nesses complexos e encontrando ali relativa tranquilidade para manter seus negócios e ordenar execuções em seus estados de origem — afirmou.
Expansão para outros estados
A chegada de criminosos de outros estados ao Rio é tema de uma série especial do jornal EXTRA, que revela as conexões que permitiram a expansão do Comando Vermelho (CV) para 24 estados e o Distrito Federal. As reportagens ainda mostram como a presença da facção tem provocado confrontos em outras regiões do país e disseminado táticas típicas do Rio, como a cobrança de taxas ilegais, o comércio clandestino de sinal de internet e a montagem de barricadas armadas.
A participação dos traficantes de outros estados na dinâmica do crime local foi tema de um comunicado do Comando Vermelho de Minas, revelado no primeiro capítulo da série. Veiculado pelo WhatsApp, a mensagem que circulou em setembro dizia: “Têm chegado muitas reclamações contra irmãos de Minas que estão vindo para o Rio e não estão tendo nenhum compromisso e dedicação com a facção”. O Conselho Permanente CV-MG, que assina o recado, afirmava que esses criminosos estão nas favelas cariocas apenas para aproveitar seus “benefícios”. Segundo policiais, os territórios cariocas oferecem proteção, uma vida mais luxuosa, status no crime e novos parceiros de negócios.
Na noite de terça-feira, em frente ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, que recebeu parte dos corpos da operação, duas mulheres de Goiás aguardavam notícias dos maridos. Uma delas contou que estava em chamada de vídeo com o companheiro, abrigado na Vacaria, quando ele foi alvejado por policiais. Desde então, não teve mais notícias.
— É muito difícil, ainda mais por estar longe de casa. Meu marido morrer assim... nem sei onde ele está. No hospital, informaram que ele não chegou. Não há registro dele, mas com certeza está morto. Pegaram ele — disse, aos prantos.
A mulher contou que chegou ao Rio este ano com a filha pequena. O marido, que já havia sido preso por tráfico em Goiás, veio antes. Segundo ela, o casal pretendia recomeçar a vida na capital fluminense. Na Penha, ele era assistido por um advogado ligado a integrantes do Comando Vermelho.
— Ele errou muito na vida, mas queria mudar. Achávamos que poderíamos recomeçar aqui. Acreditávamos estar protegidos, mas aconteceu isso — lamentou.
Para o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, o Comando Vermelho sofreu o maior baque imposto pela polícia desde o início da história da facção.
— O Comando Vermelho está presente em praticamente todos os estados do Brasil, disputando território e trazendo suas lideranças para se esconderem nesses QGs. A operação das forças de segurança atacou o coração do CV, e eles sofreram um golpe como nunca antes em sua história — declarou.


