Futuro ameaçado: 88 facções criminosas avançam pelo Brasil

PCC e Comando Vermelho são apontados como pioneiros e os maiores; atuam em todo o país e crescem

 Nos últimos meses, o crime organizado no Brasil dominou os noticiários em todo o país, especialmente por dois fatores: a Operação Carbono Oculto, que mira o Primeiro Comando da Capital (PCC), e a megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro (RJ), que mirou a facção Comando Vermelho (CV). Ambas incitaram a opinião pública a voltar os olhos para esses grupos e escancararam o quão ampla é a atuação da criminalidade no Brasil. Fato que leva às questões: como surgiram? O que os “alimenta”? Onde estão e atuam? 

Eles dominam não apenas os noticiários, mas também o próprio país. PCC e CV são, respectivamente, a primeira e a segunda maiores organizações criminosas brasileiras. Mas, ao todo, conforme o Mapa das Organizações Criminosas 2024, da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), pelo menos 88 grupos coexistem no país, afetando, especialmente, o sistema prisional. Entre eles estão ainda Amigos dos Amigos (ADA - do Rio), Terceiro Comando Puro (TCP - fundada no Rio), Paz, Liberdade e Direito (PLD, ligada ao PCC), entre outras dezenas.

Conforme dados do Mapa da Violência 2024, divulgado pelo Ipea, o PCC está em quase todos os estados brasileiros - com exceção apenas no Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul. Considerado o maior grupo criminoso do país e da América Latina, o PCC tem pelo menos 100 mil membros - 40 mil vitalícios e 60 mil “contratados”, segundo publicação do The Economist, de 2023. Além disso, conforme o Ministério Público de São Paulo (MPSP), além do Brasil, o PCC já expandiu seus “negócios” para pelo menos 28 países, com mais de 2.000 integrantes no exterior. 

O PCC surgiu em 1993. Estudiosos apontam que o grupo nasceu como um “sindicato do crime”, após o “Massacre do Carandiru”, em 1992 - operação que terminou com 111 presos mortos. O livro “A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil”, dos autores Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias, mostra que a facção se aproveitou da insatisfação dos presos com as ações do governo para recrutar membros.

A facção foi reconhecida pelo governo como grupo criminoso e ganhou “notoriedade” após duas grandes rebeliões - em 2001 e 2006 - que a “apresentaram” para o país e marcaram sua ascensão. Após 2006, o PCC cresceu, ampliou atuação fora dos presídios, criou estatuto e diversificou os ramos. Hoje a facção atua em diversos setores da economia, como redes de motéis, lojas de conveniência, postos e distribuidoras de combustíveis, além de fintechs, focando em lavagem de dinheiro e sonegação.

Já o Comando Vermelho, o mais antigo, foi criado na década de 70, no Rio de Janeiro. “Surgiu por meio da simbiose entre presos criminosos comuns e presos políticos. Inclusive, o nome Comando Vermelho deriva de um grupo armado de esquerda chamado Falange Vermelha”, explica o delegado de Polícia Civil de SP, Gustavo Mesquita. “Presos políticos ensinaram táticas de guerrilha e combate urbano a criminosos comuns, que a partir daí passaram a controlar o tráfico nas comunidades do Rio, criando esse sistema de governo paralelo, onde editam as suas próprias regras e leis”, diz.

A organização passou a atuar dentro e fora dos presídios, apostando, especialmente, no tráfico de drogas. Na década de 80, como aponta publicação do Insight Crime, o grupo se associou aos cartéis colombianos para tráfico de cocaína. Inclusive, foi na Colômbia que o líder do CV, Fernandinho Beira-Mar, foi preso em 1999. “O grupo passou a controlar muitos bairros pobres do Rio de Janeiro que haviam sido negligenciados pelo Estado”, aponta o relatório.

Pesquisa do Geni e Instituto Fogo Cruzado aponta que o Comando Vermelho expandiu seu controle territorial em 8,4% de 2022 para 2023, no Grande Rio, ultrapassando as milícias e respondendo por 51,9% das áreas controladas por criminosos na região. No Brasil, o CV está em 15 estados mais o distrito federal.
 

Facções criam “universidade” do crime

 

Embora inimigas, especialistas apontam pontos de convergência entre o PCC e o CV. Ambas aproveitam os vácuos deixados pelo Estado e acabam recrutando novos membros com a falsa premissa de buscar justiça, paz, liberdade, igualdade e respeito à população prisional, segundo o delegado Gustavo Mesquita. “É uma grande balela porque o que ambas buscam é a obtenção de vantagens econômicas por meio de atividades criminosas e ilícitas”, diz.

Cecília Olliveira, fundadora do Instituto Fogo Cruzado, acrescenta que o que fortalece uma facção não é o tráfico de drogas em si, mas o poder de governar o território e ocupar o espaço deixado pelo Estado. “Facções se consolidam quando assumem o papel de mediadoras da vida cotidiana: cobram taxas, regulam o comércio, garantem “segurança”, fornecem gás, transporte, internet. É o controle social e econômico que sustenta o poder, não apenas a venda de drogas”, comenta.

Ela lembra que o sistema prisional brasileiro funciona como um “centro de treinamento e comando”. “É onde se recrutam novos membros, se mantêm as comunicações e se resolvem conflitos entre grupos”, explica.