Sem falar português, menino autista surpreendeu família ao aprender inglês sozinho no tablet

História do menino autista que aprendeu inglês sozinho revela como a família usou hiperfoco para estimular o falar e a comunicação antes do português

Há seis anos, a história de Rafael, um menino autista morador de Timbó, no interior de Santa Catarina, chamou a atenção de especialistas e familiares pela peculiaridade de seu desenvolvimento. Na época com pouco mais de 4 anos, ele surpreendeu a todos ao começar a se comunicar fluentemente em inglês, mesmo vivendo em um ambiente onde ninguém dominava o idioma estrangeiro, superando o isolamento inicial de sua condição.

 

O garoto, que era o terceiro dos quatro filhos de Valir e Juliana, apresentava dificuldades de interação antes de encontrar na tecnologia uma porta de entrada para a fala.

Enquanto os pais buscavam formas de estimular seu desenvolvimento após o diagnóstico, o menino utilizou um tablet para assistir a desenhos e conteúdos online, o que desencadeou um aprendizado autodidata impressionante que desafiou até mesmo os profissionais que o acompanhavam.

Os primeiros sinais surgiram quando Rafael tinha um ano e oito meses. Os pais perceberam que ele não interagia, demonstrava dificuldades de comunicação e costumava ficar isolado brincando sozinho.

Após uma série de exames e consultas, a família recebeu a confirmação de que ele era um menino autista.

 

A preocupação inicial dos pais, segundo relatos da época, não era com o diagnóstico em si, mas com o medo de como ele se comportaria em relação à sociedade e se conseguiria ser independente.

Foi na tentativa de estimular o filho que os pais ensinaram Rafael a usar um tablet. O menino passou a navegar na internet e escolhia desenhos em inglês.

Graças à memória visual apurada, ele começou a repetir o que ouvia e, de repente, passou a se comunicar com a família apenas naquele idioma. A mãe chegou a registrar em vídeo o momento em que ele contava até mais de 100 em inglês e identificava cores, ignorando os comandos em português.

A barreira do idioma e o hiperfoco

Embora o desenvolvimento da fala fosse um avanço, a situação gerou um novo desafio: a família não falava inglês. Na região onde moravam, a segunda língua comum era o alemão, e ninguém na casa, nem mesmo parentes próximos, possuía fluência no idioma que o menino autista adotou.

 

Isso deixou os pais apreensivos, pois muitas vezes não conseguiam entender o que a criança queria ou precisava, já que o feedback dele era exclusivamente em língua estrangeira.

Especialistas explicaram que o fenômeno ocorreu devido ao hiperfoco, uma característica comum no espectro autista. A língua estrangeira chamou mais a atenção de Rafael e, ao associar imagens às palavras nos vídeos que assistia, ele memorizou o conteúdo com rapidez.

Para os profissionais de fonoaudiologia que o atendiam, aquilo foi uma novidade, pois nunca haviam tratado um paciente que tivesse desenvolvido a fala dessa maneira.

Aprendizado de Libras e o retorno à língua materna

Além do inglês, a curiosidade de Rafael o levou a aprender outra forma de comunicação sozinho: a Libras (Língua Brasileira de Sinais).

Também por meio da internet, o menino autista memorizou o alfabeto manual e chegava a ensinar as letras aos interlocutores, demonstrando uma capacidade cognitiva aguçada para linguagens visuais.

 

No entanto, o foco do tratamento na época precisou ser redirecionado. A fonoaudióloga trabalhava para estimular o menino a falar português, utilizando associações com objetos do cotidiano, como “gato”, “coração” e “lua”.

O objetivo era preparar Rafael para a escola regular e garantir sua socialização, já que o domínio da língua materna era essencial para que ele pudesse se comunicar com todos ao seu redor e conquistar a independência tão desejada pelos pais.

O inglês, contudo, foi reconhecido como a porta fundamental que se abriu para tirar a criança do silêncio.