Sertanejo raiz de 75 anos vive isolado há décadas na mata paulista em casa construída pela própria família e preserva um modo de vida que quase desapareceu do Brasil

A trajetória de um sertanejo de 75 anos que vive isolado na mata paulista revela uma rotina marcada por simplicidade, tradição familiar e um estilo de vida quase extinto

O Domingo Espetacular visitou um dos últimos representantes dos povos sertanejos paulistas e encontrou seu Matias, que vive isolado no meio da mata fechada. Ele recebeu a equipe em um dia especial, o aniversário de 75 anos, e mostrou a rotina que mantém desde a infância.

 

Vive isolado e mantém o modo de vida sertanejo

Matias leva uma vida simples, construída com trabalho intenso desde cedo. Ele desconhece escola, vizinhos próximos e amizades próximas. Segue um modo de viver que herdou do pai, responsável por erguer a casa da família com ajuda da mãe, do próprio Matias e de nove irmãos.

Os irmãos deixaram o lugar para morar na cidade. O pai morreu há 20 anos. A mãe preferiu ir embora e ele decidiu permanecer naquele canto da mata onde sempre viveu.

Matias ficou sem companhia humana, embora cercado pelos bichos que cria e pelos animais que a floresta abriga. Assim vive isolado, sustentando a mesma forma de vida que marcou antigas gerações sertanejas.

A equipe partiu da capital em direção a São Miguel Arcanjo, quase 200 km dali, para conhecer o guardião da mata que mantém essa existência discreta. O trajeto incluiu uma expedição de UTVs para levar mantimentos e registrar a história do sertanejo que mora no meio do mato.

 

Caminho desafiador até o homem que vive isolado

Chegar à casa de Matias exige enfrentar poeira, mata fechada e trechos difíceis. Os veículos avançam entre riachos, buracos, pedras e lama dentro do Parque Estadual Nascentes do Paranapanema, em Capão Bonito.

Após duas horas de trilha, a equipe encontrou o casebre onde Matias nasceu e permanece até hoje. Há uma pequena área de plantação cercada, aparentemente com milho, e ali no fundo ele surgiu para receber a visita.

Matias cumprimentou a equipe com simplicidade e abriu o portão improvisado. Mostrou alegria pela presença inesperada no dia do aniversário.

Visitas ocasionais quebram o isolamento. Grupos ligados a esportes radicais, pesquisadores e funcionários do parque costumam passar por ali. Eles entregam mantimentos e saem levando lições sobre aquele cotidiano.

 

No aniversário, Matias recebeu parabéns, orações e palavras de afeto. Ele celebrou com entusiasmo, repetindo bênçãos e desejando fartura para todos.

A rotina dentro da casa de quem vive isolado

O sertanejo convidou a equipe para conhecer a casa. Contou que ficou corcunda por carregar muito peso durante anos, percorrendo 20 km até a cidade e voltando pelo mesmo caminho carregando cimento e mantimento no lombo do cavalo e no próprio corpo.

A casa tem quatro quartos simples preparados para eventuais visitantes. Há duas cozinhas, uma com fogão a gás e outra a lenha. Placas solares recebidas de visitantes permitem acender lâmpadas.

Fora da casa, ele mantém patos e galinhas. O ambiente reflete o estilo sertanejo raiz que acompanha sua trajetória.

O dia de Matias começa antes do amanhecer. Ele alimenta patos, galinhas, pintinhos e cachorros que fazem companhia diária. Entre eles está a patinha Tono, descrita por ele com carinho enquanto ela sapateia animada.

 

Uma costela de porco defuma pendurada no varal da cozinha. O arroz diário é preparado no fogão a lenha. Cada gesto faz parte da vida que ele aprendeu a conduzir sozinho.

Matias confirma que é feliz ali. Afirma que aquele é o canto onde gosta de viver. Diz que tem saúde, com exceção de uma perna que considera mais fraca, mas garante que a máquina do corpo segue funcionando.

Guardião da floresta que vive isolado há décadas

A vida de Matias já virou documentário. A obra retrata a rotina do homem que canta a vida, celebra cada dia, desbrava a mata virgem, planta, cria e pesca o próprio alimento.

Antes de dormir, ele liga o radinho de pilha para chamar o sono. Em poucas horas começará outro dia de silêncio e solidão. Para ele, essa solidão não é fardo. É a escolha que fez e que mantém com convicção.

Matias segue firme no caminho que considera certo. Ele vive isolado por opção, guiado pela simplicidade que aprendeu na infância e manteve pela vida inteira. E assim encerra mais um dia entre a mata, esperando que Deus receba cada passo de braços abertos, enquanto permanece no lugar onde vive isolado e construiu sua história.