
Em 21 de dezembro de 2025, reportagem de campo do G1 revelou que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade iniciou uma pesquisa piloto que prevê o abate de cerca de 500 búfalos invasores em reservas isoladas da Amazônia rondoniense, no Vale do Guaporé, para testar formas de controle de um rebanho já estimado em mais de 5 mil animais.
A iniciativa ocorre em uma área de encontro raro entre Floresta Amazônica, Pantanal e Cerrado e tenta responder a uma pressão crescente: estudos apresentados ao Ministério Público Federal indicam que, sem medidas efetivas, a população de búfalos pode explodir para algo em torno de 50 mil cabeças em cinco anos, agravando o colapso de cervos, buritizais e campos alagados.
Como os búfalos invasores chegaram a uma reserva única da Amazônia

O plano fracassou, os rebanhos foram abandonados e passaram a se reproduzir livremente dentro de unidades de conservação.
Atualmente, os animais circulam entre a Reserva Biológica Guaporé, a Reserva Extrativista Pedras Negras e a Reserva de Fauna Pau D Óleo, em uma região isolada do oeste de Rondônia.
É um mosaico de conservação considerado único, onde campos alagados, florestas e áreas de transição abrigam espécies endêmicas, muitas delas só registradas ali, segundo técnicos do ICMBio.
Relatórios recentes apontam que mais de 4 mil búfalos já vivem em condição selvagem na região, sem qualquer controle sanitário ou de manejo.
Sem predadores naturais, os búfalos invasores se expandem sobre áreas de várzea, lagos e campos naturais, disputando espaço com espécies nativas e alterando a dinâmica de água e solo em um território pensado justamente para proteger ambientes alagados.
O que o teste com 500 búfalos pretende medir no Vale do Guaporé
Diante da impossibilidade logística de retirar os animais vivos ou mortos para abate sanitário fora da área, o ICMBio desenhou uma pesquisa em três frentes.
O próprio instituto coordena a gestão da área e a logística do controle, uma empresa especializada se voluntariou para executar o abate em campo e pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia vão analisar a sanidade de parte dos animais abatidos.
O plano é eliminar cerca de 500 búfalos, o equivalente a 10 por cento do rebanho atual, e acompanhar em detalhe como o ambiente reage.
Os pesquisadores querem saber como chegar aos animais, qual a capacidade real de abate em área remota e o que acontece quando as carcaças são deixadas no local, já que não há estrutura para remoção em larga escala.
Desde o início de 2025, o ICMBio coleta amostras de água nas mesmas áreas, antes da campanha de controle, para comparar qualidade hídrica antes e depois do abate.
Na etapa seguinte, câmeras serão instaladas em uma parte das carcaças para identificar quais animais se alimentam delas, se isso beneficia ou prejudica espécies nativas e se há risco de efeito cascata sobre a fauna local.
Cervo do pantanal encurralado pelos búfalos invasores
Entre as espécies mais afetadas pelos búfalos invasores está o cervo do pantanal, listado como vulnerável à extinção.
Em dez dias de trabalho com drones e caminhadas na região, analistas do ICMBio não registraram cervos dividindo espaço com os búfalos, o que indica segregação forçada de habitat.
Os animais asiáticos podem chegar perto de dois metros de altura e pesar mais de meia tonelada. Com esse porte, pisoteiam e destroem a vegetação baixa que serve de alimento ao cervo do pantanal, deslocando o herbívoro nativo para pequenas áreas remanescentes.
O resultado é confinamento dos cervos em bolsões isolados, com menor disponibilidade de comida e maior vulnerabilidade a doenças e caça.
A presença dos búfalos invasores também funciona como vetor de caça.
Fiscalizações já flagraram caçadores que entram nas reservas atrás de búfalo e acabam abatendo outras espécies, como cervos, jacarés e tatus.


