
A reportagem do
esteve nas ruas de Cuiabá para ouvir moradores sobre a situação do transporte coletivo da Capital. As entrevistas revelam um abismo entre os números oficiais e a experiência cotidiana: enquanto a Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) afirma que 95% dos ônibus têm ar-condicionado, usuários reclamam de calor excessivo, veículos quebrados e superlotação nos horários de pico.
"A maioria dos ônibus não tem ar. Quando tem, é fraquinho. Você sua o corpo todo", declarou Reis Pereira, morador de Cuiabá há 40 anos. A estudante Ana Cristina, de 16 anos, confirmou o problema: "No fim da manhã, ao retornar do trabalho, é comum pegar ônibus sem ar-condicionado. Aí quebra", disse.
As queixas contrastam com os dados apresentados pelo diretor de Transporte da Semob, Nicolau Budib, que informou que a frota operacional é composta por 322 ônibus em circulação, com idade média de 4,56 anos e 95% equipados com climatização. "São máquinas. Às vezes quebra um vidro, uma peça, ou o ar-condicionado precisa de reparo", justificou.
Tarifa cara e Terminal Bispo na mira
Reis Pereira também criticou o valor da tarifa, atualmente em R$ 4,95, e comparou Cuiabá a outras capitais. "É uma das passagens mais caras. Em São Paulo você anda 100, 200 quilômetros pagando R$ 5 ou R$ 6", declarou. O que o morador não sabe é que o custo real de cada viagem no sistema cuiabano está entre R$ 10 e R$ 11 – mais do que o dobro do que ele paga. A diferença é subsidiada pela Prefeitura.
Outro ponto crítico apontado pelos usuários é o Terminal Bispo, considerado um gargalo do sistema. "Ali é uma calamidade no horário de pico. É um em cima do outro. De manhã, meio-dia e à tarde", afirmou Reis, que cobrou providências do prefeito Abilio Brunini (PL). "Eu apoiei confiando na palavra. Tem que mudar esse terminal e trocar os ônibus. O transporte em Cuiabá está com problema sério", declarou.
Avanços reconhecidos por jovens usuários
Nem todos os passageiros fazem avaliação negativa. O jovem Luiz Fernando, de 21 anos, destacou melhorias recentes. "Até que está tranquilo. Está melhorando sim. Aumentou a frota, chega mais rápido e os ônibus estão mais novos", afirmou. Ana Cristina também reconheceu avanços em relação ao passado: "Antes era muito ruim. Eu sempre chegava atrasada no serviço. Hoje em dia tem melhorado", relatou.
O cadeirante Silvio Arcio, morador de Bela Vista (RR) e em Cuiabá há três dias apenas de passagem, elogiou a acessibilidade. "Os ônibus tinham rampa de acesso. Tem alguns buraquinhos nas vias, mas a gente aprende a passar", disse.
Segundo Budib, a Semob aplica multas diárias às empresas concessionárias por falhas na operação. Nos últimos 90 dias, foram registradas 4.794 infrações, sendo cerca de 4 mil relacionadas ao descumprimento de horários. "Uma multa por elevador de cadeirante inoperante, por exemplo, é de R$ 5 mil", informou.
As linhas que mais registram atrasos estão concentradas na região Sul – Coxipó, Pedra 90, Osmar Cabral, Tijucal, São João Del Rey, Industrial e Pascoal Ramos. Segundo o diretor, o problema ocorre porque os ônibus disputam espaço com veículos particulares em vias congestionadas. "O transporte público concorre com os demais veículos. Um ônibus substitui até 60 carros", ressaltou.
Entre as melhorias previstas estão a reforma do Terminal CPA 3, a desmobilização do Terminal CPA 1 com a implantação do BRT, a reforma do Terminal da Antártica e a construção de um novo terminal na região do Osmar Cabral.
O sistema transporta entre 180 e 190 mil passageiros por dia. Atualmente, quatro empresas operam o transporte coletivo em Cuiabá.


