Idoso catador de recicláveis da Bahia, emociona ao conquistar pós-graduação aos 63 anos em Universidade Federal

Idoso de 63 anos, Jeronimo Bispo dos Santos, catador de recicláveis de Camaçari (Bahia), voltou a estudar, somou formações ao longo da vida e concluiu uma pós-graduação na UFBA, mostrando que aprender no nordeste não tem prazo de validade.

 Se você acha que “já passou da idade” para voltar a estudar, a história de um idoso da Bahia vai te fazer repensar na hora. Jeronimo Bispo dos Santos viveu o tipo de rotina que costuma esmagar sonhos: começou a trabalhar ainda criança, interrompeu a escola, precisou correr atrás de sustento e, mesmo assim, não largou a ideia de aprender.

O resultado veio do jeito mais simbólico possível: mais de 60 anos nas costas e um certificado de pós-graduação nas mãos, na universidade federal mais tradicional do estado. 

Uma vida inteira entre trabalho pesado e vontade de estudar

Jeronimo sempre teve queda pelos estudos. Desde pequeno, lá em Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano, ele dizia que achava bonito ver as crianças indo para a escola.
 

Só que a vida apertou cedo: aos 9 anos, começou a trabalhar para ajudar a mãe a criar os irmãos mais novos.

Mais tarde, aos 18, ele parou de frequentar a escola justamente quando se mudou para Camaçari em busca de uma chance melhor.

 

Mesmo com as interrupções, ele não desistiu. Em 1986, aos 24 anos, conseguiu retomar os estudos e se formou como técnico em Instrumentação Industrial.

Depois, ainda nos anos 1990, concluiu o segundo grau em Administração de empresas. Décadas mais tarde, em 2012, veio a graduação em Administração pela Unifacs. 

A conquista na Universidade Federal da Bahia – UFBA: pós-graduação aos 63 anos

A virada mais recente aconteceu neste ano de 2025. Jeronimo, aos 63 anos, recebeu o certificado de conclusão da pós-graduação em Gestão de Resíduos Sólidos Socialmente Integrada, curso da Escola Politécnica da UFBA, uma universidade federal que ele próprio tratou como sonho antigo.

A cerimônia de entrega do certificado ocorreu na terça-feira (7), segundo relato publicado pelo Jornal Correio em 10 de outubro de 2025. 

 

O curso é divulgado pela Escola Politécnica da UFBA como uma formação voltada ao tema de resíduos e gestão integrada, com foco social e ambiental, em linha com o que o próprio nome do programa propõe. Para referência institucional, veja a página do curso de Gestão de Resíduos Sólidos Socialmente Integrada (GERSI).

Coopmarc, Camaçari e a rotina dupla: administrar e catar

O diploma não é “enfeite” para Jeronimo. Ele atua como administrador e catador de recicláveis na Cooperativa de Materiais Recicláveis de Camaçari (Coopmarc), onde trabalha desde 1999.

Foi nessa época que ele entrou na cooperativa a convite de um amigo, enquanto conciliava o serviço como instrumentista no polo petroquímico com a catação nas ruas. 

E ele conta com detalhes como era o dia a dia: “Eu saía do polo, vinha para a cooperativa, pegava o carro-plataforma com a grade e a gente ia catar papelão”.

Na rua, vinha também o julgamento, inclusive de gente próxima. Jeronimo ouviu provocações e questionamentos, mas respondia de forma direta:

 

“O pessoal me encontrava na rua e dizia assim: ‘você é um técnico catando papelão?’. E eu respondia: ‘não, eu não estou catando porque eu quero, é porque preciso’. Estou dentro da cooperativa e quero ajudar”

Idoso 63 anos: O “vovô da sala” e o preço real da disciplina

A caminhada acadêmica sempre cobrou caro em rotina. Jeronimo descreve que precisou trocar lazer por estudo e passar domingos e feriados mergulhado em trabalho e pesquisa.

Ele relata que, quando não estava na cooperativa, estava estudando em casa com um grupo de quatro colegas, e que até comentários atravessados surgiam, como se estudar fosse “ostentação”.

“Quando não estava na cooperativa, estava em casa estudando, pesquisando, fazendo trabalho junto com o grupo que formamos, de quatro colegas. As pessoas falavam: ‘ficou rico e tal’. Eu dizia: ‘não, gente, estou estudando, está uma correria muito grande’.” 

Aos 51, quando virou presidente da cooperativa e iniciou a graduação (em 2008), ele diz que era o “vovô da sala” e que aprender já não era “tão simples” quanto antes.

Ele resume com honestidade o que muita gente acima de mais de 60 anos sente, mas nem sempre fala “A gente já sabe que a cabeça não é tão boa, e alguma coisa a gente já esquece, precisa se esforçar mais. Por isso, eu tive que parar mesmo, ficar dentro de casa para poder estudar”

 

Por que a história do Idoso de 63 anos, Jeronimo, importa para o Brasil que está envelhecendo