Com bico cheio de “dentes” de osso e envergadura de cerca de 6,4 metros, a Pelagornis sandersi entrou para a história como uma das maiores aves voadoras já registradas

Com envergadura de 6,4 metros e bico com pseudodentes, a Pelagornis sandersi foi uma das maiores aves voadoras já registradas pela ciência.

Uma ave marinha extinta, com envergadura estimada em cerca de 6,4 metros e um bico marcado por estruturas ósseas que parecem dentes, passou a figurar entre os maiores voadores já descritos pela ciência.

 

Trata-se da Pelagornis sandersi, espécie identificada a partir de fósseis encontrados na região costeira de Charleston, no estado da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, e descrita em estudo publicado pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, conhecida pela sigla PNAS.

A dimensão atribuída à espécie a coloca em um patamar que ultrapassa, com folga, o tamanho das maiores aves voadoras atuais, como grandes albatrozes.
 

Envergadura da Pelagornis sandersi e o que o estudo aponta

Os dados mais citados na literatura de divulgação vêm do que os pesquisadores classificaram como uma estimativa conservadora de envergadura, em torno de 6,4 metros.

No mesmo trabalho, os autores relatam que a espécie é representada por um crânio e material pós-craniano substancial, o que permitiu testar, com modelagens, quais perfis de voo seriam compatíveis com um animal desse porte.

 
( Superior ) Reconstrução de P. sandersi (elementos preservados no holótipo são mostrados em branco) com D. exulans (albatroz-real; envergadura média de 3 m) para comparação de escala. ( Inferior ) Crânio do holótipo de P. sandersi (ChM PV4768) em (a) vista dorsal, (b) vista ventral, (c) vista lateral esquerda (mandíbula em vista medial) e (d) vista lateral direita (mandíbula em vista lateral). Úmero direito em (e) vista caudal e (f) vista cranial. Escápula em (g) vista lateral e (h) vista medial. (i) Fúrcula parcial do fêmur em (j) vista cranial e (k) vista caudal. Tíbiotarso em (l) vista cranial e (m) vista caudal. Fíbula em (n) vista lateral. Tarsometatarso em (o) vista dorsal (porção distal exposta na vista medial devido à deformação) e (p) rotacionado para mostrar a porção distal em vista dorsal. (q) Falange do pé. cc, Crista cnemial lateral; fac, fossa aditus canalis neurovascularis; fc, faceta; haf, faceta articular umeral; ie, eminência intercotilar; j, jugal; lf, sulco lateral; mtII, tróclea metatarsal II; nfh, dobradiça nasofrontal; pf, forame pneumático; pp, processo paroccipital; sf, fossa subcondilar; sup, supra-angular; sw, inchaço na crista deltopeitoral; syn, articulação sinovial; tb, tubérculo; trf, sulco transverso.
Superior ) Reconstrução de P. sandersi (elementos preservados no holótipo são mostrados em branco) com D. exulans (albatroz-real; envergadura média de 3 m) para comparação de escala. ( Inferior ) Crânio do holótipo de P. sandersi (ChM PV4768) em (a) vista dorsal, (b) vista ventral, (c) vista lateral esquerda (mandíbula em vista medial) e (d) vista lateral direita (mandíbula em vista lateral). Úmero direito em (e) vista caudal e (f) vista cranial. Escápula em (g) vista lateral e (h) vista medial. (i) Fúrcula parcial do fêmur em (j) vista cranial e (k) vista caudal. Tíbiotarso em (l) vista cranial e (m) vista caudal. Fíbula em (n) vista lateral. Tarsometatarso em (o) vista dorsal (porção distal exposta na vista medial devido à deformação) e (p) rotacionado para mostrar a porção distal em vista dorsal. (q) Falange do pé. cc, Crista cnemial lateral; fac, fossa aditus canalis neurovascularis; fc, faceta; haf, faceta articular umeral; ie, eminência intercotilar; j, jugal; lf, sulco lateral; mtII, tróclea metatarsal II; nfh, dobradiça nasofrontal; pf, forame pneumático; pp, processo paroccipital; sf, fossa subcondilar; sup, supra-angular; sw, inchaço na crista deltopeitoral; syn, articulação sinovial; tb, tubérculo; trf, sulco transverso.



O artigo também destaca que, ao menos nesses cálculos, a Pelagornis sandersi excede limites teóricos propostos anteriormente para aves planadoras modernas, o que reforçou o interesse em entender como um animal assim se mantinha no ar.

Fósseis em Charleston e o caminho até a descrição científica

A história do fóssil passa por um detalhe incomum: os ossos que sustentariam a descrição formal da espécie foram encontrados décadas antes da publicação científica.

Relatos sobre a descoberta apontam que o material foi recuperado em 1983, durante escavações associadas a obras nas proximidades do aeroporto de Charleston.

O conjunto teria permanecido sob guarda institucional por anos até receber análise detalhada, período em que diferentes especialistas tiveram contato com as peças antes da descrição formal.

“Pseudodentes” no bico e por que a ave não tinha dentes verdadeiros

 

O “sorriso” da Pelagornis sandersi, frequentemente destacado em reconstruções, não corresponde a dentes verdadeiros como os de mamíferos.

O grupo ao qual a espécie pertence é conhecido como Pelagornithidae, frequentemente chamado de aves “pseudo-dentadas” ou “de dentes falsos”.

Nesse caso, as projeções ao longo do bico são extensões ósseas do próprio maxilar e da mandíbula, com aparência de dentes e função associada à captura e retenção de presas escorregadias no ambiente marinho.

Essa diferença é relevante porque, segundo descrições de museus e materiais explicativos, a perda de uma dessas estruturas equivaleria a quebrar uma parte do osso do bico, e não a soltar um dente substituível.
 

Voo planado, desempenho aerodinâmico e limites do tamanho

Com envergadura de 6,4 metros e bico com pseudodentes, a Pelagornis sandersi foi uma das maiores aves voadoras já registradas pela ciência. (Arte/ Alisson Ficher)