Como as ameaças de Trump ao Brasil explicam a perda da influência global dos EUA

Para muitas potências emergentes, os planos da China de remodelar o mundo parecem brandos na comparação com as ameaças americanas

Na semana passada, o presidente de direita dos Estados Unidos escreveu uma carta contundente ao presidente de esquerda do Brasil. Com seu entusiasmo característico, Donald Trump ameaçou impor tarifas elevadas como punição por, entre outros pecados, o processo judicial contra Jair Bolsonaro, o ex-presidente que enfrenta acusações criminais por sua tentativa de se manter no poder após sua derrota eleitoral em 2022.

“Este julgamento não deveria estar ocorrendo”, escreveu Trump. “É uma caça às bruxas que deve terminar IMEDIATAMENTE!”

Isso causou um grande alvoroço. No entanto, perdido em meio à confusão, estava um documento muito mais discreto, mas potencialmente mais importante, assinado poucos dias antes no Brasil: um acordo entre empresas estatais chinesas e brasileiras para dar os primeiros passos na construção de uma linha férrea que conectaria a costa atlântica do Brasil a um porto de águas profundas construído pela China na costa do Pacífico peruano.

Se construída, a linha de aproximadamente 4.500 quilômetros poderia transformar grande parte do Brasil e seus vizinhos, acelerando o transporte de mercadorias de e para os mercados asiáticos.

Potência emergente x Potência hegemônica

Esse caso é uma uma amostra clara das abordagens contrastantes que a China e os Estados Unidos adotaram em relação à sua crescente rivalidade. A China oferece ajuda aos países para construir uma nova linha ferroviária, enquanto Trump os intimida e se intromete em seus assuntos políticos internos.

Os primeiros seis meses do segundo mandato de Trump como presidente têm sido surreais e oferecem drama, perigo e intriga sem fim. Por esse padrão, sua briga com Luiz Inácio Lula da Silva, parece até insignificante. Mas ao mesmo tempo, o entrevero foi um momento revelador, que joga luz sobre como a imprudência de Trump agrava o principal problema da política externa americana das últimas duas décadas:

Como os Estados Unidos devem executar uma saída elegante de sua posição cada vez mais insustentável no topo de uma ordem global em ruínas?

E, mais ainda, como Washington pode dar origem a uma nova ordem que proteja os interesses e o prestígio americanos sem arcar com os custos — em sangue e ativos financeiros — de uma primazia militar e econômica?

Essas são questões difíceis e espinhosas. No entanto, em vez de respostas, Trump oferece ameaças, birras e tarifas, em detrimento dos interesses americanos.

A surpreendente ascensão econômica da China, juntamente com sua virada para um autoritarismo mais profundo sob Xi Jinping, tornou mais difícil responder a esses desafios. A China agora parece, para a maioria dos formuladores da política externa americana — e ainda mais para Trump —poderosa demais para não ser confrontada pelos Estados Unidos.

Mas essa linha de pensamento corre o risco de ignorar o melhor e mais facilmente aproveitável trunfo dos Estados Unidos na disputa pela hegemonia global com a China: a maioria dos países não quer escolher lados entre as potências hegemônicas. Eles preferem um mundo de competição benigna e aberta, no qual os Estados Unidos desempenham um papel importante, embora menos dominante.

Multilateralismo benéfico

Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que no Brasil. Uma nação vasta, quase do tamanho dos Estados Unidos , é um bom exemplo para muitas das potências médias do mundo. Ao contrário da famosa piada de que o Brasil é o país do futuro e sempre será, ele conseguiu se tornar a décima maior economia do mundo, apenas um pouco menor que o Canadá. Tem uma longa tradição de proteger suas relações com uma série de grandes potências — Estados Unidos, China e União Europeia — enquanto tenta avançar em sua ambição de ser um ator importante nos assuntos mundiais.

À medida que a posição dos Estados Unidos como única superpotência perdeu força e os líderes brasileiros disputaram para moldar um cenário cada vez mais multipolar, esses esforços se intensificaram. Isso envolveu, sem dúvida, um aprofundamento de suas relações econômicas e diplomáticas com a China, seu maior parceiro comercial. Lula viajou a Pequim em maio para sua terceira reunião bilateral com Xi desde que voltou à presidência em 2023, declarando que “nossa relação com a China será indestrutível”.

Os dois países são membros fundadores do Brics, um bloco formado principalmente por países em desenvolvimento de renda média que inclui vários antagonistas dos Estados Unidos como a Rússia e, mais recentemente, o Irã. As autoridades americanas há muito tempo desconfiam do Brics, que tem buscado de maneiras diversas, ainda que marginais, frustrar o poder americano. Mas Trump tem sido abertamente antagônico. Na semana passada, enquanto Lula sediava a cúpula do Brics, Trump publicou um post nas redes sociais ameaçando impor tarifas adicionais a qualquer nação que “se alinhasse às políticas antiamericanas do Brics”.

Essa agressividade é difícil de conciliar com as declarações brandas do Brics, que, como era de se esperar, condenaram o bombardeio do Irã e suas instalações nucleares, mas evitaram nomear os países que o realizaram, Israel e os Estados Unidos. Embora os países membros tenham aumentado o comércio entre si, ajudando a Rússia a escapar das sanções ocidentais, o bloco quase não fez progressos em sua intenção declarada de introduzir uma moeda comum para combater o dólar. É um grupo frouxo e às vezes conflituoso, que na prática funciona apenas como fórum de discussão.

Alguns países do Brics gostariam que a organização fosse mais abertamente antagônica aos Estados Unidos, mas o Brasil, juntamente com a Índia e a África do Sul, tem se oposto veementemente a transformá-la em um bloco antiamericano ou antiocidental. “O Brasil sabe que a China é indispensável e os Estados Unidos são insubstituíveis”, disse-me Hussein Kalout, cientista político brasileiro que anteriormente atuou como secretário especial para assuntos estratégicos do país. “O Brasil nunca fará uma escolha binária. Isso não é uma opção.”

De fato, o Brasil tem muito a perder ao alienar os Estados Unidos, e seus laços crescentes com a China são tanto um sintoma do vinagre americano quanto do mel chinês. Ele faz uma enorme quantidade de negócios com os Estados Unidos, com um superávit comercial a favor dos Estados Unidos de cerca de US$ 7 bilhões no ano passado.

Os Estados Unidos são a maior fonte de investimento estrangeiro direto do Brasil, crescendo constantemente na última década em tudo, desde energia verde até manufatura. Lula e Trump podem ser ideologicamente opostos, mas se algum dia se encontrassem, teriam muitos motivos pragmáticos para se dar bem.

Em vez disso, Trump optou pelo antagonismo. Parte de seu cálculo, claramente, é político. Mas se Trump pensou que estava ajudando a direita de Jair Bolsonaro a reconquistar o poder ao minar Lula, sua carta parece ter tido o efeito oposto. Lula, que já foi um dos líderes mais populares e celebrados do mundo, obteve uma vitória muito apertada em 2023. Sua popularidade caiu à medida que ele luta para cumprir sua promessa eleitoral de reduzir os preços e melhorar a economia. Graças aos ataques de Trump, os brasileiros estão se unindo em torno de seu presidente.

Mas a disputa mostra algo mais profundo e importante. Para muitas potências emergentes, os supostos planos revisionistas da China de remodelar o mundo parecem brandos na comparação com o uso chocante de tarifas, sanções e poderio militar por parte de Trump.

“Da perspectiva brasileira, o país que busca firmemente mudar a dinâmica subjacente da ordem global são os Estados Unidos”, disse-me o cientista político brasileiro-alemão Oliver Stuenkel. Os Estados Unidos, e não a China, são os destruidores.

Isso é um choque para o mundo e uma vergonha terrível para os Estados Unidos. Trump está perdendo uma oportunidade que seus dois antecessores — Barack Obama e Joe Biden — deixaram escapar: usar o domínio decadente dos Estados Unidos para moldar uma nova ordem multipolar mais igualitária, que preserve a influência e o poder americanos, ao mesmo tempo em que abre espaço para que outros cresçam. Essa não seria uma tarefa fácil, exigindo escolhas dolorosas sobre os valores e compromissos fundamentais dos Estados Unidos. Também exigiria humildade, uma qualidade que poucos presidentes americanos demonstraram, em grande parte porque os eleitores americanos tendem a não buscá-la nem recompensá-la.

A inevitável Guerra Fria

Os americanos elegeram agora um presidente que parece não ter nenhuma humildade e cujas palavras e ações transbordam uma arrogância que nem mesmo a caricatura mais grosseira do americano feio conseguiria evocar. Mesmo que Trump tenha prometido evitar guerras e envolvimentos no exterior, sua visão de paz parece baseada em uma forma de domínio do tipo “América em primeiro lugar” que convida ao caos que ele promete evitar. Essa postura torna quase inevitável o confronto violento com a China, o único rival real da primazia americana — e mais provável o retorno da disputa sombria que caracterizou a Guerra Fria, quer a China deseje isso ou não.

O que é certo é que muitos países — ricos e pobres, em declínio e em ascensão — definitivamente não querem isso. O Brasil tem suas próprias lembranças amargas de ter sido um joguete de duas grandes potências envolvidas em uma luta pelo domínio. Em 1964, os Estados Unidos apoiaram um golpe que derrubou o presidente de esquerda democraticamente eleito do país, João Goulart, condenando o Brasil a mais de duas décadas de ditadura militar brutalmente repressiva. A ditadura foi apenas um capítulo da sangrenta batalha indireta entre os Estados Unidos e a União Soviética que não deixou nenhuma região intocada pela imposição do despotismo e da dominação.

Esperamos estar muito longe de um retorno a esse mundo. Lula, um populista inflamado, optou por não morder a isca retórica de Trump, apelando sobriamente para negociações. Mas ele também não recuou. Em uma entrevista na televisão, ele disse que, se os Estados Unidos não se sentarem à mesa, o Brasil aumentará suas tarifas para igualar as de Trump. “Se eles vão nos cobrar 50, nós vamos cobrar 50 deles”, disse ele.

Significativamente, ele baseou sua resposta nos poderes legais que lhe foram recentemente concedidos por um projeto de lei aprovado este ano pelo legislativo brasileiro. Trump, por outro lado, arrogou-se o direito de usar as tarifas como uma ferramenta pessoal para exercer seu poder à vontade.

FONTE New York Times, via Estadão