Pais relatam alta de até 30% em material escolar às vésperas da volta às aulas

Pais recorrem à pesquisa, compram só o básico e mudam a forma de consumir

Faltando menos de um mês para a volta às aulas na rede estadual, marcada para 2 de fevereiro, o aperto já chegou ao bolso de quem precisa equipar os filhos para o novo ano letivo. Enquanto alguns pais relatam estabilidade nos preços, outros enfrentam aumentos que chegam a 30% em determinados itens — realidade que tem levado famílias a pesquisar mais, comparar ofertas e até adiar compras na esperança de promoções de última hora.

"Estou achando o material muito fora do preço. Está mais caro que nos outros anos", avalia Neuza Aparecida, moradora do bairro Parque do Lago e mãe de dois adolescentes de 13 e 15 anos. Segundo ela, alguns produtos tiveram aumento entre 20% e 30%, obrigando a família a apertar o cinto. "Prefiro ir na loja física para comparar e ver o que cabe no bolso", conta. Neuza estima gastar cerca de R$ 400 neste ano, comprando apenas o básico para os dois filhos.

A reportagem do  ouviu pais, estudantes e comerciantes de papelarias em Cuiabá e Várzea Grande para traçar o cenário da volta às aulas em 2026 — um retrato que revela equilíbrio delicado entre cautela no consumo, mudanças no perfil de compra e adaptação a um mercado em transformação.

Se para Neuza o impacto foi forte, a experiência da estudante Giovana de Oliveira, 17 anos, que está no último ano do ensino médio em uma escola estadual de Várzea Grande, foi diferente. "Para mim está a mesma coisa, não mudou muito", diz. A mãe dela, Maria, confirma que o gasto em 2026 ficou dentro do esperado e até menor do que no ano anterior. "Ano passado foi mais caro. Esse ano ficou mais tranquilo", afirma.

Do lado dos lojistas, o panorama também varia. Em uma papelaria tradicional da Capital, o gerente Carlos Caldeira, que trabalha há 38 anos no mesmo local, afirma que neste ano os preços dos materiais se mantiveram estáveis. A estratégia para atrair clientes tem sido facilitar a vida dos pais. "A gente manteve os preços e ainda está dando 15% de desconto na lista completa. Também fazemos entrega gratuita em casa. O cliente manda a lista, a gente separa tudo e entrega", explica.

Para Carlos, os itens básicos continuam sendo os mais procurados: caderno, lápis, borracha, caneta e tinta guache. O movimento, segundo ele, está melhorando aos poucos e segue em patamar parecido com o do ano passado, com expectativa de crescimento até fevereiro. "Tem cliente aqui que o pai comprava para o filho e hoje o filho compra para o neto. Isso vira um legado", conta.

Já em outra papelaria da região central de Cuiabá, o comerciante Veríssimo Lopes Galvão Neto relata uma realidade diferente. Com foco maior nas escolas públicas, ele diz que a distribuição de kits escolares pelo poder público tem afetado diretamente as vendas. "Nos outros anos, o Governo e a Prefeitura forneceram material para todo mundo. Isso prejudicou muito o nosso movimento", reclama.

Mesmo assim, Veríssimo não percebeu altas expressivas nos preços, com exceção dos cadernos, que tiveram aumento estimado entre 15% e 20%. "O papel Chamex, por exemplo, tem quase um ano que está no mesmo preço", diz. Segundo ele, janeiro e fevereiro concentram a maior movimentação, embora até agora o fluxo ainda esteja tranquilo.

A percepção de queda no movimento também é compartilhada por Luana, que trabalha em outra papelaria da Capital. Para ela, a concorrência com as compras online mudou o comportamento dos consumidores. "As pessoas preferem comprar pela internet e receber em casa. Isso diminuiu bastante o movimento na loja", relata.

Ela observa que, apesar de aumento nos preços em relação aos anos anteriores, muitos pais têm comprado apenas o básico, principalmente porque parte do material acaba sendo fornecida pelas escolas públicas ao longo do ano. "Eles compram só para começar: caderno, lápis, borracha. Depois esperam o material da escola".

O assessor jurídico do Procon, José Matheus, orienta pais e responsáveis sobre seus direitos na hora de comprar o material escolar. Ele explica que o órgão não faz monitoramento direto de preços, já que o mercado é regido pela livre concorrência, mas acompanha a situação por meio de reclamações.

"Neste ano, não tivemos nenhuma reclamação relacionada a aumento abusivo de preços", afirma. Segundo ele, os produtos que mais costumam variar de valor são aqueles ligados a tendências e personagens, como mochilas e lancheiras de marcas específicas, influenciados pela lei da oferta e da demanda.

José Matheus chama atenção para um ponto recorrente em anos anteriores: a solicitação indevida de materiais de uso coletivo pelas escolas. "Itens como papel higiênico, toner ou materiais de expediente não podem ser exigidos dos alunos. Isso já deve estar incluído na mensalidade", explica.

Ele também alerta que não é permitido exigir marcas específicas ou indicar locais obrigatórios para a compra, com exceção de apostilas e uniformes, quando há fornecedor exclusivo. Em caso de irregularidades, a orientação é reunir provas, como fotos ou listas, e procurar o Procon presencialmente ou pelos canais digitais.