
O termo “brainrot” (apodrecimento cerebral), eleita pela Oxford University Press como palavra do ano, passou a fazer parte do vocabulário da internet para descrever o fluxo caótico e acelerado de memes, sons e bordões que se espalham pelo TikTok, Roblox e jogos online.
Exemplos notórios como o áudio em loop de fazem com que muitos pais e professores enxerguem essa manifestação cultural como um disparate, mas, para a juventude, é a nova linguagem de conexão social.
A repetição e o remix de frases da cultura popular não são novidade. Gerações passadas repetiam bordões de filmes ou programas de TV clássicos, mas o que mudou drasticamente é a fonte. Para os jovens de hoje, os momentos memoráveis não vêm mais da televisão ou do cinema, mas sim de vídeos curtos e editados do TikTok, transmissões ao vivo de Roblox, mods caóticos de Minecraft e do humor acelerado dos jogos online.
Código compartilhado
“Embora o termo ‘brainrot’ seja frequentemente usado de forma consciente e com um toque de ironia para descrever essas expressões, remixar e repetir fragmentos de mídia sempre fez parte da forma como as pessoas se conectam. Isso cria um código cultural compartilhado, uma segunda linguagem feita de referências, ritmos e sons que unem grupos e transformam momentos cotidianos em oportunidades para humor e interação social. De muitas maneiras, esse estilo de comunicação oferece leveza e descontração em um mundo que, em comparação, muitas vezes parece lento e monótono”, apontam, em artigo publicado no The Conversation, o professor de Segurança Cibernética da Loughborough University, e os doutorandos na mesma instituição Lilly Casey-Green e Patrick Scaife.
Essa nova forma de interação online também coloca em xeque os modelos de design de jogos e ferramentas interativas. Muitos adultos cresceram com videogames estruturados em torno de longas narrativas, missões e quebra-cabeças, como Pokémon ou Zelda. Essa experiência moldou a forma como se pensa o jogo e, por extensão, o design interativo. No entanto, a experiência da juventude atual é fluida, fragmentada e incessantemente social, transitando entre plataformas e piadas baseadas em memes sem perder o fio da meada.
“O que às vezes parece uma sobrecarga de estímulos desconexos para os adultos é totalmente coerente para eles. Eles dominam uma forma de alfabetização digital que envolve a combinação de referências, humor, áudio, imagens e interações em alta velocidade”, dizem os pesquisadores.
Autoconsciência na cultura brainrot
Apesar do tom pejorativo do termo, a pesquisa científica ainda não conseguiu estabelecer uma relação de causalidade entre o consumo desse conteúdo e a saúde mental ou cognitiva. Embora estudos apontem associações entre o uso excessivo de vídeos curtos e pior qualidade do sono ou pontuações mais baixas em tarefas de atenção, a incerteza persiste. Os pesquisadores da Universidade de Loughborough ressaltam a dificuldade em provar o que vem primeiro.
“Permanece incerto se o conteúdo de formato curto afeta a atenção ou se os jovens com estilos cognitivos específicos simplesmente se sentem atraídos por mídias que já se adequam à maneira como processam informações”, pontuam.
Segundo eles, há ainda um elemento de autoconsciência em grande parte da cultura brainrot. “Seu absurdo não é acidental, faz parte da piada. Nesse sentido, ela ecoa movimentos artísticos ou culturais anteriores que abraçaram o nonsense ou a subversão lúdica. Um dos pontos principais é que isso não é algo imposto às crianças por empresas ou algoritmos. Brainrot é algo que os jovens escolhem construir juntos, adaptando e desenvolvendo referências dentro de seus próprios círculos”, dizem.
“A desmotivação intelectual não é prova de que os jovens estão desinteressados ou sem imaginação. É um reflexo de como eles interpretam um mundo digital que é rápido, fragmentado e repleto de ideias.”


