
A Rua 13 de Junho, no Centro de Cuiabá, enfrenta um dos momentos mais difíceis dos últimos anos, segundo relatos de comerciantes que atuam na região. A percepção é de queda acentuada nas vendas, com movimento bem abaixo do esperado para o período, especialmente em comparação com anos anteriores. O cenário ganhou repercussão após a circulação de um vídeo nas redes sociais que mostra a tradicional via com pouca circulação de clientes e a legenda: “Cuiabá faliu 13 de Junho abandonado”. Nos comentários, a publicação dividiu opiniões: enquanto uns apontam as possíveis causas, outros questionam o horário em que o vídeo foi gravado. “Tem que ver o horário que isso aí foi gravado, nunca fui no centro de Cuiabá no horário de pico e está essa calmaria”, dizia um dos comentários. A reportagem do MidiaNews visitou a Rua 13 de Junho na tarde da última quinta-feira (16), por volta das 13h, um dos horários considerados de “pico”, ou seja, com maior circulação de pessoas. A reportagem observou circulação de clientes em lojas e pessoas caminhando pelas calçadas com sacolas de compras. O movimento, segundo os lojistas, não se traduz necessariamente em vendas. Nos estabelecimentos de diferentes segmentos, gerentes e atendentes confirmam a queda no movimento. Entre as causas citadas estão desde as obras no sistema de drenagem da região central e o estacionamento rotativo até as vendas pela internet e uma crise financeira em todo o país. Gerente da loja Dinda Linda há um mês, Nally Charupá afirma que abril, historicamente mais aquecido, tem registrado desempenho abaixo do esperado. “Tá parado, bem parado. Abril geralmente tem que ter um movimento maior, mas ele está bem reduzido. Acredito que seja por conta das obras que começaram, ficou umas três semanas fechado, então ainda tá bem parado”, disse. Ela relata que, mesmo com leve melhora recente, as vendas ainda estão entre 40% e 50% abaixo do ideal. Além das intervenções na região, Nally também aponta o impacto da economia. “Roupa hoje é luxo. As pessoas só vão entrar para comprar se tiverem uma vida estável. Aumentou gasolina, mercado, tudo isso faz o movimento cair”, afirmou. A avaliação é semelhante à da gerente do Shopping das Unhas, Patrícia Dias, há dois anos na função. Ela classifica o momento como um dos piores desde que começou a trabalhar no local. “Eu acredito que está bem crítico. Do tempo que eu estou aqui, esse tem sido um dos piores momentos”, disse. Segundo ela, a queda começou há cerca de três meses e foge do padrão esperado para a época. Patrícia atribui a redução principalmente às obras e à dificuldade de acesso. “O trânsito está caótico e as clientes não têm onde estacionar. Ou pedem Uber ou alguém deixa e depois busca. O estacionamento rotativo também influenciou. Tanto que os dias de melhor fluxo para nós são os sábados, quando tem como o pessoal estacionar aqui de graça”, afirmou. A gerente Ilma Regina, da loja Queen Bang, afirmou que, para sua loja, a queda é ainda mais expressiva: cerca de 80% em relação a abril do ano passado. “Foi uma queda muito grande, bem perceptível. Depois da pandemia, esse é o pior ano”, disse. Ela também apontou mudanças no comportamento do consumidor, como o avanço das compras online, além das dificuldades impostas pelo estacionamento rotativo. “Hoje é mais fácil comprar pela internet. E o rotativo impacta, porque quem vem de fora precisa parar rápido, pegar mercadoria, e agora tem mais restrições”, explicou. No Centro Atacadista, a gerente Carol Almeida também descreve um cenário negativo. “O comércio está bem decadente. Esse está sendo pior do que o mesmo período no ano passado”, afirmou. Segundo ela, o movimento não reagiu nem após o período de Carnaval, quando tradicionalmente há melhora nas vendas. “Aqui a gente vende de tudo, eletrônicos, malas, bolsas, acessórios. Era para estar com o fluxo bem grande, mas infelizmente não está”, disse. A atendente Débora Marra, do Pastel e Cia, reforça que a queda é sentida em diferentes setores e aponta uma combinação de fatores. “Caiu bastante. As obras dificultam estacionar e transitar. Tem trânsito, dificuldade, aí as pessoas desanimam”, afirmou. Ela também citou o aumento do custo de vida e questões de segurança na região como fatores que afastam consumidores. “Gasolina, mercado... tudo aumentou. E também tem muitos roubos, muitos moradores de rua. Isso acaba afastando a população”, disse. Uma gerente que preferiu não se identificar afirmou que a queda vem desde fevereiro e, na loja dela, é de aproximadamente 20%. “As pessoas estão priorizando alimentação, água, luz”, relatou. Já a gerente Gabi Santos, do Moda Crocs, aponta queda de até 60% nas vendas e destaca o impacto direto das obras. “Atrapalhou muito. Tá bem parado”, afirmou. “Exagero” Apesar do cenário atual, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Cuiabá, Junior Macagnam, considera exagerada a afirmação de que a 13 de Junho “faliu”. “É um certo exagero”, disse. Ele reconheceu que houve queda no movimento, mas avaliou que o problema é pontual e temporário e está diretamente ligado às obras em andamento na região. “É uma região que está sofrendo intenso impacto com as obras. Isso dificulta o acesso de ônibus, carro, gera engarrafamento e as pessoas deixam de ir ao centro”, afirmou. Segundo ele, a expectativa é de melhora após a conclusão das intervenções, que incluem obras de saneamento e mobilidade urbana. “Entendemos que isso é momentâneo. Essas obras vão acabar e vão melhorar a qualidade da água, o saneamento e o transporte público”, disse. Macagnam também citou mudanças estruturais no comportamento de consumo, como a descentralização do comércio, o crescimento das vendas online e o esvaziamento do Centro Histórico. “Hoje temos comércio forte nos bairros, digitalização dos bancos, fechamento de agências. Isso diminuiu o fluxo no Centro”, explicou. “Temos um centro histórico que deixa muito a desejar. Casarões escorados, o consumidor fala da sensação de insegurança, pessoas em situação de rua, usuários de drogas na região. Tudo isso faz com que as pessoas se afastem”, disse. Segundo Macagnam, a CDL tem buscado alternativas para enfrentar o cenário, cobrando do poder público soluções para os problemas da região e investindo na qualificação dos comerciantes. Segundo a entidade, recentemente foram realizadas capacitações voltadas a vendedores, além da inserção de ferramentas digitais entre os associados, com o objetivo de melhorar a jornada do cliente — inclusive integrando o atendimento físico e online. A CDL também tem apostado em campanhas promocionais, como ações de Natal e liquidações, para atrair consumidores e estimular as vendas. “Agora, é importante que o empresário também faça a sua parte para proporcionar ao consumidor a melhor jornada de compra, porque nada vai substituir o olho no olho”, afirmou. Outro lado Em nota, a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra) informou que, no momento, não há interdição por conta das obras do BRT na região central. Segundo a pasta, há bloqueios pontuais de faixas para movimentação de máquinas e estreitamento de pista entre a Praça Ipiranga e a Rua XV de Novembro. A secretaria também afirmou que firmou parceria com o aplicativo Waze para informar motoristas sobre interdições e rotas alternativas. Já a concessionária Águas Cuiabá informou que as obras na Rua 13 de Junho foram concluídas e que, atualmente, as equipes realizam apenas serviços pontuais de acabamento, sem impacto no tráfego. A empresa destacou que as intervenções fazem parte de um conjunto de melhorias no sistema de drenagem da região central, com o objetivo de reduzir alagamentos e ampliar a eficiência do escoamento das águas pluviais. “As obras requerem ajustes momentâneos, mas são essenciais para avançarmos em soluções definitivas de saneamento básico. Estamos conduzindo o trabalho com planejamento e atenção para reduzir interferências, sempre mediante autorização e acompanhamento do órgão regulador”, afirmou Lucas Alves, diretor operacional da concessionária. A previsão é de que as obras na região central sejam concluídas até maio, podendo sofrer alterações em razão das condições climáticas. Semanalmente, a concessionária divulga o calendário de obras e ações de saneamento básico. 
Foi uma queda muito grande, bem perceptível. Depois da pandemia, esse é o pior ano

Eu acredito que está bem crítico. Do tempo que eu tô aqui, esse tem sido um dos piores momentos
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