
Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o Brasil produziu 5,304 milhões de barris de petróleo equivalente por dia em fevereiro de 2026 — um recorde histórico.
Só de petróleo bruto, foram 4,061 milhões de barris diários — um aumento de 16,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Contudo, mesmo produzindo todo esse petróleo, o país ainda importa até 25% do diesel e 10% da gasolina que consome, segundo a OEC.
Além disso, no primeiro trimestre de 2026, as exportações de petróleo bruto para a China saltaram 94%, totalizando US$ 7,2 bilhões.
Dessa forma, o Brasil vende a matéria-prima barata e compra de volta o produto refinado caro — um ciclo que engenheiros e economistas chamam de “rota colonial energética”.

A matriz é 83% renovável — mas a conta de luz está entre as mais caras da América Latina
O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo: 83% da eletricidade vem de fontes renováveis — hidrelétrica, eólica, solar e biomassa.Por outro lado, a conta de luz brasileira é uma das mais caras da região, com bandeiras tarifárias, impostos e encargos que fazem o consumidor pagar muito mais do que a energia efetivamente custa.
Consequentemente, cerca de 35 milhões de brasileiros vivem em situação de pobreza energética — sem acesso adequado a energia para necessidades básicas como refrigeração, iluminação e aquecimento.
Da mesma forma, o país desperdiça energia solar e eólica porque não tem linhas de transmissão suficientes para levar a eletricidade de onde é gerada até onde é consumida.
Portanto, o paradoxo é duplo: o Brasil é rico em energia, mas muitos brasileiros não conseguem pagá-la — e parte da energia limpa que produz é simplesmente jogada fora.
Enquanto exporta bilhões em petróleo, 90 milhões de brasileiros não têm esgoto coletado
De acordo com o Ranking do Saneamento 2026 do Instituto Trata Brasil, publicado em março de 2026, o cenário do saneamento básico no Brasil continua crítico.Mais de 30 milhões de brasileiros não têm acesso a água potável, e aproximadamente 90 milhões não têm coleta de esgoto.
Além disso, mais da metade dos 100 municípios mais populosos do país investe menos de R$ 100 por habitante por ano em saneamento — abaixo dos R$ 225 anuais considerados necessários pelo Plano Nacional.
Nesse sentido, o Brasil é um país que produz quase 5% do petróleo mundial mas não consegue garantir água limpa e esgoto tratado para metade da sua população.
Igualmente, enquanto a Petrobras lucra bilhões e distribui dividendos recordes, o sistema de saneamento do país avança em ritmo incompatível com as metas estabelecidas para 2033.

O investimento em infraestrutura é metade do necessário — e as obras paradas custaram R$ 15,9 bilhões
Conforme levantamento da CNI, o Brasil investiu cerca de 2,24% do PIB em infraestrutura em 2024 — quando o ideal seria próximo de 4%.Como resultado, faltam R$ 200 bilhões por ano para modernizar a infraestrutura do país.
Ao mesmo tempo, o Tribunal de Contas da União identificou 11.469 obras públicas paralisadas em abril de 2025, com R$ 15,9 bilhões já investidos em projetos que nunca foram concluídos.Por consequência, o Brasil perde dinheiro nas duas pontas: investe pouco no novo e desperdiça o que já investiu no antigo.
Ainda assim, 72% do investimento em infraestrutura já vem do setor privado — sinalizando que o governo não consegue mais bancar sozinho as obras de que o país precisa.
O país produz como potência energética — mas distribui como país em desenvolvimento
O pré-sal respondeu por 80,2% de toda a produção brasileira em fevereiro de 2026, com destaque para o Campo de Tupi na Bacia de Santos — maior produtor nacional com 865 mil barris por dia.No entanto, essa riqueza não se traduz em melhoria direta na vida da maioria dos brasileiros.
De fato, o petróleo virou o maior item de exportação do Brasil em 2025, superando soja e minério de ferro.Sobretudo, a Petrobras, que opera 89% da produção nacional, registrou lucros bilionários e distribuiu dividendos recordes aos acionistas.
Apesar disso, a empresa não conseguiu — ou não priorizou — investir o suficiente em capacidade de refino para eliminar a dependência de importação de derivados.


