
A China pode estar prestes a assumir o controle de uma das maiores operações de níquel do Brasil, mas a União Europeia decidiu que não vai deixar isso acontecer sem uma briga. A venda dos ativos de níquel da mineradora britânica Anglo American nas cidades de Barro Alto e Niquelândia, em Goiás, para a chinesa MMG foi anunciada em fevereiro de 2025 e avaliada em até US$ 500 milhões. Desde então, a operação enfrenta uma investigação europeia que já suspendeu prazos, acessou milhares de documentos internos das duas empresas e pode resultar na rejeição total da transferência.
O problema central é estratégico: um terço da produção de ferroníquel da Anglo American atende atualmente o mercado europeu, e o Brasil é o maior fornecedor dessa matéria-prima para a União Europeia. A Europa teme que a China, ao controlar a extração, redirecione o níquel para o mercado asiático, comprometendo o abastecimento europeu de um mineral considerado crítico para a transição energética. A Anglo American e a MMG negam que haveria desvio, mas os reguladores europeus não parecem convencidos.
O que está em jogo nas minas de Goiás
As operações de níquel da Anglo American em Barro Alto e Niquelândia, em Goiás, são algumas das mais relevantes do Brasil. O país é um dos maiores produtores de ferroníquel do mundo, e as minas goianas abastecem tanto o mercado interno quanto exportam para Europa, Ásia e América do Norte. A Anglo American decidiu vender esses ativos como parte de uma reestruturação global iniciada em 2024, quando a empresa optou por se concentrar apenas em cobre, minério de ferro e fertilizantes.
A reestruturação foi uma resposta à tentativa de aquisição hostil pela gigante australiana BHP. Para se defender, a Anglo American prometeu aos investidores que simplificaria o portfólio e se desfaria de carvão, níquel, platina e diamante. A venda do níquel para a chinesa MMG era parte desse plano, mas a investigação europeia transformou o que deveria ser uma transação de poucos meses em um impasse que já dura mais de um ano.
A investigação europeia e os prazos que não param de escorregar
A venda foi comunicada aos reguladores da União Europeia em maio de 2025. Executivos das duas empresas esperavam a aprovação até setembro daquele ano. Em novembro, o bloco abriu uma investigação formal sobre os efeitos da transferência para o fornecimento europeu, acessando milhares de documentos, bancos de dados e trocas de emails das duas mineradoras.
O prazo de 90 dias úteis para a conclusão da análise foi suspenso ainda em novembro, obrigando a Anglo e a MMG a adiarem a data limite para junho de 2026. Agora, em maio de 2026, o prazo segue suspenso com 78 dias de análise restantes. As duas empresas já mencionam setembro de 2026 como nova data, embora o contrato ainda não tenha sido atualizado. A União Europeia pode exigir ajustes operacionais para garantir que o níquel continue indo para a Europa, ou pode simplesmente barrar a venda.
O bilionário turco que complicou tudo
A investigação europeia não nasceu espontaneamente. Quem acionou a Comissão Europeia foi Robert Yüksel Yildirim, empresário turco dono da CoreX Holding, que alega ter oferecido um valor maior pelos ativos de níquel da Anglo American, mas foi preterido em favor da chinesa MMG. A oferta original da CoreX era de US$ 450 milhões. Em abril de 2026, em meio à análise europeia, o turco ampliou a proposta para US$ 750 milhões, sendo US$ 400 milhões à vista.
A movimentação é significativa porque investidores avaliam que uma venda para a holding turca seria mais facilmente aceita pelos reguladores europeus do que para a China. A CoreX não carrega o peso geopolítico de ser uma empresa chinesa operando em um setor que a Europa considera estratégico. A Anglo American não comentou a nova proposta, mas a diferença de US$ 250 milhões em relação à oferta da MMG coloca pressão sobre a mineradora britânica.
Por que a Europa trata o níquel como questão de segurança
O níquel é um mineral crítico para a transição energética. Ele é essencial na fabricação de baterias de íons de lítio para veículos elétricos, em ligas de aço inoxidável e em superligas para a indústria aeroespacial. A China já domina grande parte do processamento global de níquel e controla a cadeia de baterias de ponta a ponta, e a Europa não quer aumentar essa dependência permitindo que mais uma fonte de matéria-prima caia em mãos chinesas.
A preocupação europeia se insere em um contexto mais amplo de “de-risking”, a estratégia do bloco para reduzir a dependência de fornecedores chineses em cadeias críticas. Os Estados Unidos também pressionaram: a associação da indústria de mineração americana pediu que Trump intervisse na venda, classificando-a como risco à segurança do fornecimento ocidental de níquel. Para a Anglo American, o negócio deveria ser puramente comercial. Para europeus e americanos, é geopolítica.
O que a MMG e a Anglo American dizem
Jorge de Carvalho, diretor-geral da MMG no Brasil, afirmou à Folha de S.Paulo que o processo europeu está demorando muito mais do que a empresa antecipava. Segundo ele, “vivemos em um ambiente geopolítico tenso e em constante mudança, e essas tensões podem acabar se sobrepondo aos interesses comerciais e às realidades de mercado”. Sandra Xiangjun Guan, gerente-geral executiva da MMG, disse que todas as outras condições para conclusão já foram satisfeitas e que, assim que a aprovação europeia vier, a transferência pode acontecer rapidamente.
A Anglo American, por sua vez, afirmou que segue trabalhando de forma construtiva com as partes envolvidas e ressaltou a importância de que avaliações dessa natureza avancem com previsibilidade e clareza. A mineradora também conduz uma fusão com a canadense Teck Resources, prevista para o final de 2026. Embora a fusão não esteja condicionada à venda do níquel, executivos da Anglo esperavam que a transferência fosse aprovada antes da conclusão. O impasse europeu frustra a reestruturação e mantém a China, a Europa e um bilionário turco disputando o destino do níquel brasileiro.
Você acha que a União Europeia deveria barrar a venda do níquel de Goiás para a China, ou a decisão é puramente comercial e não cabe a reguladores estrangeiros interferir? O que mais chama atenção: os US$ 750 milhões do turco, o veto europeu ou o fato de que o destino de um mineral brasileiro é decidido do outro lado do mundo? Conta nos comentários.


