Bife de ouro, vinho de R$ 6 mil, R$ 5 milhões em uísque: os jantares de Vorcaro com Cláudio Castro

Ex-banqueiro e ex-governador do Rio trocaram mensagens e tiveram encontros presenciais pouco antes de investimentos milionários da Rioprevidência no Master

BRASÍLIA Daniel Vorcaro bancou experiências de luxo a Cláudio Castro (PL). Entre outras coisas, o ex-banqueiro pagou US$ 1,013 milhão (cerca de R$ 5 milhões) por uma degustação de uísque com o ex-governador do Rio de Janeiro, em Nova York. No dia seguinte, o Rioprevidência, comprou R$ 80 milhões em letras financeiras do Banco Master. 

Estas e outras extravagâncias estão documentadas em
mensagens trocadas por Castro e Vorcaro, que foram recuperadas pela Polícia Federal (PF) em dos celulares do banqueiro, que está preso sob acusação de liderar o maior esquema de fraudes financeiras da história do país

Castro foi alvo de mandados de busca e apreensão na terça-feira (26/5), na mais recente fase da operação Compliance Zero, que buscou provas sobre sua relação com Vorcaro, que resultaram em aporte de R$ 3 bilhões do Rioprevidência no Master, mesmo diante de alertas de riscos. 

Partes das mensagens entre os dois foram divulgadas pela GloboNews na noite de quarta-feira (27/5). Nesta quinta (28/5), o “Estadão” e “O Globo” publicaram trechos do relatório enviado pela PF ao ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). Eles detalham encontros entre o ex-governador e o ex-banqueiro. 

 

Em uma das mensagens, Vorcaro chamou Castro para a degustação de uísque. O encontro ocorreu em 14 de maio de 2024, no The Carnegie Club, perto do Central Park, em Manhattan. Depois, o Rioprevidência fez três aportes no Master: além do primeiro, no dia seguinte, de R$ 80 milhões, um segundo de R$ 80 milhões e outro de R$ 70 milhões. 

As conversas também mostram que Vorcaro pagou a Castro ao menos dois jantares no Nusr-Et Steakhouse New York, especializado em carnes ao estilo mediterrâneo e conhecido por preparar bifes folhados a ouro que custam cerca de R$ 9 mil cada.

Um dos jantares ocorreu em maio de 2023. A conta do restaurante ultrapassou US$ 13 mil (cerca de R$ 65 mil), segundo a investigação. Após o encontro, Castro enviou uma mensagem de agradecimento a Vorcaro: “Amigo, foi uma experiência incrível. Muito obrigado.”

 

Já em 2024, Vorcaro organizou um novo jantar no Nusr-Et Steakhouse New York para Castro e orientou um interlocutor a pedir vinhos e um prato especial. As garrafas custariam cerca de R$ 6 mil. Na mesma conversa com o interlocutor, Vorcaro sugeriu: “Pede aquela carne de ouro”. 

“Evidencia‑se a preparação de uma experiência gastronômica marcada por elevado requinte no restaurante Nusr‑Et, em Nova Iorque. Entre os itens mencionados nas conversas, destacam‑se o vinho Vega‑Sicilia Único 2013 e champanhes de renome internacional – como Dom Pérignon on ice e Cristal – cuja inclusão na mesa foi autorizada por Daniel Bueno Vorcaro com a mensagem: ‘Põe as duas’”, diz o relatório da PF.

Palácio, camarote, churrascada, brunch e feijoada

A apuração policial também menciona reuniões de Castro com Vorcaro no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador, e no Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro, em março de 2024. Ambos também se encontraram em feijoada e camarote, no Rio de Janeiro.

 

A troca de mensagens evidencia que, antes de encontro entre Castro e Vorcaro, em março de 2024, o banqueiro procurou levantar informações com um assessor sobre as aquisições de papéis do Master feitas por órgãos do governo estadual. No dia 4 daquele mês, Vorcaro questionou “quanto fundo do Rio tem conosco”, e recebeu em resposta os valores aportados até então pelo Rioprevidência e pela Cedae.

Duas horas depois, Vorcaro escreveu a Castro que estava “na porta aqui”. Segundo a PF, a sequência de mensagens sugere que “tenha ocorrido um novo encontro entre Vorcaro e Castro no Palácio das Laranjeiras”. Isso porque, Castro havia citado a residência oficial na antevéspera, após Vorcaro questioná-lo “onde prefere” que o encontro ocorresse.

Os investigadores apontaram ainda que, em 10 de março, Vorcaro avisou a Castro que estaria novamente no Rio e perguntou se poderia “encontrá-lo rapidamente”. Castro, por sua vez, respondeu indicando o Palácio Guanabara como local do encontro, e se disponibilizou a “atrasar um pouco” uma reunião na sede do governo para receber o banqueiro.

 

Já no início de março de 2025, quando estava no Rio no período do carnaval, Vorcaro enviou vários convites a Cláudio para eventos. Em 1.º de março, ele escreveu ao então governador: “Fala meu irmão. Tudo bem? Vamos nos ver essa semana algum dia! Amanhã vou fazer uma feijoada, se puder ir com a esposa”. 

Em 3 de março, Castro disse a Vorcaro que iria lhe encontrar em um camarote, sem especificar qual. “Boa tarde irmão. Vou passar lá no camarote pra ter dar um abraço hj”, escreveu Castro. No dia seguinte, Vorcaro convidou o governador para uma “churrascada” e depois para um “brunch”.

Na última terça-feira, a decisão de Mendonça que autorizou a oitava fase da Compliance Zero, ressaltou que Castro “mantinha vínculo próximo com Daniel Vorcaro e exerceu papel politicamente relevante para a viabilização dos aportes do Rioprevidência no Banco Master”, inclusive trocando o comando do fundo, para colocar pessoas que aprovariam os negócios. 

 

O Rioprevidência gere os benefícios de 235 mil aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro. O Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, no mesmo dia em que Vorcaro foi preso pela primeira vez, com a deflagração da primeira etapa da Compliance Zero.

Em março, Castro renunciou ao cargo de governador na véspera de um julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que analisava ações para torná-lo inelegível por oito anos por suposto abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

A ação apurava o envolvimento em um suposto esquema de contratações irregulares na Fundação Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do RJ (Ceperj), com cerca de 27 mil cargos temporários que teriam sido usados para empregar cabos eleitorais e fortalecer a campanha de reeleição de Castro em 2022.

 

A renúncia foi vista como uma manobra para forçar que a eleição no Rio ocorresse de maneira indireta, via Alerj, onde Castro conseguiria fazer um sucessor por ter apoio majoritário. O TSE declarou sua inelegibilidade, mas ele é pré-candidato a senador, com apoio da família Bolsonaro. 

A defesa de Cláudio Castro nega a existência de “relação pessoal indevida” com Daniel Vorcaro. Já o Master afirma que todas as operações seguiram critérios técnicos e legais.