
Pode soar estranho quando Tamara Klink diz que viveu os dias mais bonitos de sua juventude sozinha. Só ela, aos 27 anos, sobre seu veleiro Sardinha 2 no mar congelado na Groenlândia, cercada pela brancura desconhecida até onde a vista alcança e via de regra sem vozes humanas. O frio que beira os -30 ºC e o risco de morte a cada passo fora da embarcação não ajudam a vender a ideia.
Mas era isso mesmo que Tamara queria: a radicalidade do isolamento, com toda a liberdade que essa distância da civilização e a adoção de um modo de vida autossustentável poderiam proporcionar. Em meio a auroras boreais, amizades com raposas, o prazer de “fazer” sua própria água quebrando icebergs e o tempo de viver sua humanidade sem a dopamina das redes sociais, ela descreve uma plena felicidade.
A navegadora paulistana leva a sério o meme “só quem se arrisca merece viver o extraordinário”, e não apenas tem vivido toda sorte de experiências maravilhosas como também as traduzido em palavras — tarefa desafiadora diante da beleza do Ártico, onde construiu, do zero e abaixo de zero, seu lar temporário. É o que se vê em seu quarto livro, ‘Bom dia, inverno’, lançado em maio pela Companhia das Letras, com o relato de sua “invernagem”.
Resumindo a palavra e a viagem, que durou oito meses, Tamara Klink navegou até a Groenlândia, estacionou a Sardinha 2 em um braço de mar cercado por montanhas, esperou que a água congelasse com o inverno e só partiu quando o verão tornou o oceano líquido novamente.
Assim, Klink se tornou a primeira mulher a completar o período de invernagem no Ártico em solitário, deixando para trás desde os mais bem-intencionados conselhos desanimadores até violências masculinas ao colocar milhas e mais milhas náuticas entre ela e seus medos, que acenavam de um porto na França enquanto o veleiro diminuía.
Parênteses: Tamara também atravessou a Passagem Noroeste em solitário e cruzou o Atlântico solo duas vezes, aventuras que contou em ‘Mil milhas’, ‘Um mundo em poucas linhas’, e ‘Nós: O Atlântico em solitário’.
'Somos ladrões do futuro'
Aos 34 anos, Amyr Klink partiu no veleiro Paratii no ano de 1989 para uma viagem que iria durar 22 meses, entre invernagem na Antártica e passagem pelo Ártico. Quando Tamara se lançou em aventura parecida em 2023 — após crescer maravilhada ouvindo histórias que seu pai contava “imitando os gritos dos pinguins e os gestos da foca que morou perto do barco” —, o mundo estava bem diferente.
Ela sabia que, caso esperasse mais tempo pelas condições pessoais ideais, a força das mudanças climáticas poderia tornar a expedição muito mais perigosa, ou até inviável. A coragem foi o único remédio.
Ao enfim chegar à Groenlândia após meses de preparação e dúvidas, a navegadora pensou no Brasil, e na exploração ambiental desenfreada que torna irmãs pela devastação paisagens tão diferentes.
“O branco me lembra o verde da Mata Atlântica. Afundar os pés na neve me lembra andar na lama do manguezal. Mil tipos de gelo são mil tipos de terra. [ ...] E por razões parecidas, conhecidas e evitáveis, o branco e o verde desaparecem cada vez mais rápido”, escreve em ‘Bom dia, inverno’.
A navegadora questiona a ideia recorrente que define como “‘civilizados’ os que deixam ruínas” e “‘primitivos’ aqueles cujo rastro é um solo mais fértil e a biodiversidade multiplicada.” Tamara diz que sua maior certeza é de que não existe separação entre humano e natureza: “É a mentira que faz a gente acreditar que as coisas que fazemos em lugares distantes não vão gerar problemas onde estamos.”
“Estamos roubando o tempo e os recursos de seres vivos que ainda não nasceram, sem voz para se defender de nós. Ladrões do futuro, não estamos ficando mais ricos, porque, apesar de viver numa era de clima estável e recursos disponíveis, mesmo quem tem tudo de que precisa quer ter mais. Ao cruzarmos os limites planetários, a Terra será um aquecedor de si mesma. E nenhuma tecnologia substituirá o inverno.”
Tamara Klink viu de perto as consequências dessa lógica, que faz o inverno chegar mais tarde e se despedir mais cedo. É a relutância do mar em congelar plenamente, dificuldade que a fez procurar outro fiorde após não conseguir se instalar no primeiro; e é também a espessura mais fina do gelo, que aumenta os perigos de cair mar adentro – o que aconteceu com ela, e a navegadora teve de lutar para não morrer na água gélida.
A navegadora Tamara Klink passou meses isolada em um fiorde na Groenlândia, durante o inverno. — Foto: Divulgação/Tamara Klink
A navegadora Tamara Klink passou meses isolada em um fiorde na Groenlândia, durante o inverno. — Foto: Divulgação/Tamara Klink
‘Experimento como é ser universal’
Relatando um relacionamento abusivo durante os preparativos da viagem, a navegadora conta que, ao chegar ao mar congelado, o fato de ser mulher deixou de ser um “multiplicador de perigos".
“Sem outros humanos, não sou mais o Outro. Experimento como é ser universal. Nem forte, nem fraca: sou o resultado dos meus gestos. Não sou mais meu rosto, minha idade, meu nome. Desaprendo a tentar caber.”
Lendo ‘O segundo sexo’, da filósofa existencialista Simone de Beauvoir, um pensamento da intelectual feminista chamou a atenção de Tamara: "A 'fraqueza' só se revela como tal à luz dos fins a que o homem se propõe, dos instrumentos de que dispõe, das leis que se impõe".
A escritora relembrou quando um caçador em Ilulissat lhe disse que, com seus “bracinhos”, a incapacidade de carregar cem quilos poderia lhe custar a vida no inverno. Não foi o caso:
“Consegui carregar todos os quilos necessários usando polias, adriças, guinchos e esses mesmos bracinhos.”
A navegadora Tamara Klink registrou auroras boreais durante sua invernagem na Groenlândia. — Foto: Divulgação/Tamara Klink
A navegadora Tamara Klink lança seu livro 'Bom dia, inverno', no Sesc Vila Mariana (São Paulo). — Foto: Amanda Mazzei/CBN
‘O sentido da vida é sentir’
Tamara Klink achava engraçado imaginar que, na vida urbana, poderiam estar sentindo pena ao imaginá-la sozinha no gelo, quando estar lá era “um prazer puro e absoluto”.
Na solitude da viagem, a escritora ganhou o tempo de mergulhar em livros sem distrações; de tocar violão; de pensar sobre a própria vida e o mundo; de conhecer outros animais; de ver o sol nascer e se pôr. Ganhou a liberdade em não ser refém de sua imagem, e em tomar as próprias decisões com certa distância dos vieses sociais, em ter seu corpo para si mesma.
Apesar do medo, dos perigos e perrengues que passou, a escritora diz ter vivido o “auge da felicidade” e “uma paz profunda e perfeita” longe da dopamina fácil das redes sociais e da voracidade do mundo capitalista: “Fecho os olhos e sinto que minha vida toda valeu a pena por este momento”.
"As cidades, a pressa, a internet nos fazem esquecer que a vida acaba — é talvez por isso que a gente renuncia às sensações. O sentido da vida é sentir. Eu não precisava estar aqui para entender isso, mas foi aqui que entendi.”
Três anos depois do feito no Ártico, terminado o livro que materializava suas memórias no fiorde, a primeira parada em terra firme para apresentá-lo foi em São Paulo, no Sesc Vila Mariana. Já com 29 anos, a escritora lotou o teatro no dia 12 de maio e rechaçou o “desencorajamento sistemático” que aqueles (principalmente aquelas) que querem se aventurar ouvem de outras pessoas, “disfarçado na forma de discursos protetores".
“Na minha experiência de viajar só, enquanto eu estava isolada, eu me expus a menos perigos do que quando eu estava me preparando para partir. Acho que tem uma ginástica também, que é mental, de a gente aceitar que talvez a gente seja capaz de fazer mais do que pensa, de aceitar se expor a alguns perigos”.
Além da sessão de autógrafos na capital paulista em duas datas, Tamara ainda passou por Rio de Janeiro e Porto Alegre em sua "turnê".
Um documentário sobre a invernagem, co-dirigido por Estela Renner e Tamara Klink, e produzido pela Maria Farinha Filmes, foi anunciado durante a COP30. No fim de maio deste ano, a Netflix divulgou que a produção deve chegar "em breve".

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