Mauro Mendes, ex-governador bolsonarista, abriu MT ao Master

Gestão credenciou banco de Daniel Vorcaro para operar consignados dias após jantar em Nova York; ex-governador nega ter sido bancado

 Mauro Mendes (União), ex-governador de Mato Grosso e aliado de Jair Bolsonaro, entrou em uma nova frente do caso Banco Master depois de o site Metrópoles revelar que o governo estadual credenciou o banco de Daniel Vorcaro para operar consignados dias após o político jantar em Nova York, no mesmo restaurante em que o banqueiro pagou uma conta de US$ 13 mil ligada a Cláudio Castro (PL). 

A reportagem não aponta que Mendes seja investigado pela Polícia Federal nem que a conta paga por Vorcaro tenha incluído suas despesas. O ex-governador afirma que pagou os próprios gastos. O fato novo é a sequência de atos: decreto estadual em 5 de maio de 2023, jantar em Nova York no dia 11 e credenciamento do Master antes do fim daquele mês.

Mauro Mendes assinou decreto que abriu caminho ao cartão consignado

O elo documental está no Diário Oficial de Mato Grosso de 5 de maio de 2023. Na edição, Mendes assinou o Decreto nº 257, que alterou regras de consignações em folha no Poder Executivo estadual e incluiu a “amortização de despesas com cartão consignado de benefício”.

 

O decreto também criou espaço para “entidades administradoras de cartão consignado de benefício” conveniadas a instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central. Segundo a apuração do Metrópoles, 19 dias depois do jantar em Nova York, o governo de Mato Grosso firmou convênios com o Banco Master e com outras duas empresas financeiras apontadas por entidades de servidores como satélites do grupo.

 

Mendes nega relação pessoal ou profissional com Vorcaro e diz que as despesas da viagem foram custeadas com recursos próprios. A apuração disponível até agora não permite afirmar que o ex-governador tenha sido bancado pelo dono do Master. O que existe, até aqui, é a coincidência temporal entre o decreto, o jantar e o credenciamento do banco.

Consignados do Master já chegaram à CPI do Crime Organizado

O avanço do Master sobre consignados em Mato Grosso já havia chegado ao Senado. Em março, o ex-governador Pedro Taques acusou o Banco Master, em depoimento à CPI do Crime Organizado, de coordenar fraudes em crédito consignado no estado. Segundo Taques, 45 mil servidores mato-grossenses teriam consignados em empresas satélites ligadas ao banco.

Na mesma audiência, senadores da bancada de Mato Grosso questionaram as conclusões de Taques e apontaram o contexto político local, já que ele e Mendes são adversários no estado. Ainda assim, a fala levou ao Congresso uma peça central do caso: o crédito consignado depende de acordo com o Estado para que as parcelas sejam descontadas diretamente da remuneração dos servidores.

Em janeiro de 2026, o próprio governo de Mato Grosso anunciou a suspensão temporária de descontos consignados de mais 11 instituições financeiras. Segundo a Seplag-MT, análises técnicas apontaram divergências entre contratos e registros no sistema, desinformação sobre valores e encargos e mais de 67% dos contratos questionados pelos próprios servidores.

O que a Fórum já mostrou sobre o Master de Vorcaro

A nova frente em Mato Grosso se soma à cobertura que a Fórum vem fazendo sobre a relação entre o Banco Master, Daniel Vorcaro e autoridades ligadas ao campo bolsonarista. A revista mostrou que Cláudio Castro virou alvo em investigação sobre aportes bilionários do Rioprevidência no Master.

A Fórum também publicou que decisão do ministro André Mendonça mencionou “vínculo pessoal estreito” entre Castro e Daniel Vorcaro, além de mensagens da PF sobre bife de ouro, uísque e luxos atribuídos ao banqueiro.

Outro desdobramento da cobertura mostrou que Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, estava em uma degustação de uísque paga por Vorcaro em Nova York. O evento reuniu políticos e autoridades e ajudou a ampliar o mapa de conexões do banqueiro fora do sistema financeiro.

O Banco Master entrou em liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central em novembro de 2025. O caso passou a expor uma rede de relações entre o mercado financeiro, governos estaduais, fundos públicos e operadores políticos que agora alcança também Mato Grosso.