
Passada a ressaca da eliminação do Brasil na Copa do Mundo, os erros em campo dão lugar às dúvidas sobre como será conduzido o novo ciclo fora dele. Com Carlo Ancelotti mantido até 2030, a CBF tenta preservar a estabilidade de um projeto que começou tarde, atravessou um ambiente conturbado e cuja campanha terminou antes do esperado, mas ainda terá de fazer uma avaliação interna sobre o que funcionou, o que falhou e quais ajustes serão necessários para que a seleção chegue em melhores condições ao próximo Mundial.
A leitura inicial dentro da entidade é de que a eliminação para a Noruega não ameaça Ancelotti, tampouco muda a convicção de que o problema do Brasil não se resume ao treinador. Há o entendimento de que o italiano teve pouco tempo para transformar uma seleção instável em um time competitivo, depois de um ciclo marcado por trocas, turbulência política e indefinições. Ainda assim, a atuação no jogo decisivo abriu espaço para questionamentos sobre escolhas de campo, especialmente as substituições no segundo tempo, vistas internamente como um dos pontos em que o treinador não viveu seus melhores dias.
Incertezas políticas
Coordenador da seleção, o executivo Rodrigo Caetano foi quem falou publicamente depois da queda e tentou dar uma moldura ao momento. Questionado sobre a preparação para o próximo ciclo, indicou que a ideia é manter a base do trabalho, “se nada diferente acontecer”. O dirigente evitou contestar Ancelotti pelas decisões de campo, mas reconheceu que a campanha precisa ser analisada com a frieza que a frustração costuma dificultar nas primeiras horas depois de uma eliminação.
Nada, por enquanto, tira o prestígio de Ancelotti ou o coloca sob risco no cargo. A renovação de seu contrato e de sua comissão antes da Copa foi feita justamente para evitar que o Brasil recomeçasse mais uma vez do zero, como aconteceu no ciclo anterior. A aposta da CBF é que a permanência do técnico, agora com quatro anos de trabalho pela frente, permita uma construção menos improvisada para o próximo Mundial.
Fora de campo, porém, ainda há incertezas sobre o desenho da gestão que vai sustentar esse novo ciclo. O presidente Samir Xaud, que completou recentemente um ano no poder, atravessa um momento de desgaste político e terá de conduzir uma recomposição interna depois do fracasso esportivo. Na derrota para a Noruega, o mandatário não falou publicamente após a partida, não apareceu no vestiário após o jogo, cumprimentou algumas pessoas no estádio em Nova Jersey e deixou o local sem dar entrevistas. Durante o torneio, a CBF também precisou lidar com ruídos administrativos e pessoais que reforçaram a preocupação de blindar o ambiente da seleção.
Nos bastidores, há uma tentativa de pacificação entre presidentes de federações e grupos de influência em Brasília, em um movimento para evitar que a seleção volte a ser atravessada por disputas internas no início de um novo ciclo. Em caso de nova mudança no comando da entidade, o estatuto prevê que José Vanildo, presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol e vice-presidente mais velho, assuma interinamente e convoque novas eleições.
'Dentro da normalidade’
A preocupação que cercou a seleção antes e durante a Copa foi justamente a de proteger o ambiente dos profissionais para que o trabalho de campo não fosse contaminado pela política da entidade. Essa diretriz ajuda a explicar a antecipação da renovação de Ancelotti, mas não elimina a possibilidade de ajustes pontuais no departamento de seleções. Uma das dúvidas envolve a permanência de Gustavo Feijó como diretor de seleções, cargo de natureza política e que ainda será discutido dentro da reorganização da CBF.
O que se desenha, neste momento, é um ciclo que começa com duas ideias em tensão: a manutenção de Ancelotti como eixo técnico e a incerteza sobre a estrutura que estará ao redor dele. A CBF quer vender estabilidade depois de uma queda dura, mas terá de demonstrar que aprendeu com os problemas de preparação, gestão e tomada de decisão que acompanharam a seleção até a eliminação nas oitavas de final.
— Imagino que tudo vai transcorrer dentro da normalidade. É claro que nós vamos carregar essa pressão de ter caído nas oitavas, o que é legítimo, mas teremos que ter experiência suficiente para seguir em frente. Agora, justamente com esse tempo, com o mesmo técnico, chegaremos a 2030 em condições muito melhores — garantiu Rodrigo Caetano, na zona mista do estádio em Nova Jersey.


