
A Europa sempre conviveu com incêndios florestais, mas eles estão se tornando cada vez mais extremos à medida que a crise climática se intensifica. Nesta semana, bombeiros na França e na Espanha tentaram controlar focos mais ferozes e imprevisíveis do que qualquer outro enfrentado anteriormente.
Na quarta-feira, autoridades da Espanha e da França informaram que alguns incêndios haviam sido estabilizados, mas alertaram que a situação ainda pode piorar em meio à quarta onda de calor registrada no continente somente neste ano.
A União Europeia também advertiu sobre o risco de novos incêndios mais a leste, especialmente na Grécia e na Itália.
Tudo isso ocorre após a temporada recorde de incêndios do ano passado na Europa. Especialistas afirmam que o continente está se juntando a uma longa lista de regiões — da Sibéria à Amazônia — que agora enfrentam temporadas consecutivas de incêndios extremos.
Os incêndios na França já devastaram mais de 160 mil hectares, tornando-se os maiores já registrados no país, e ainda restam meses pela frente na temporada de queimadas.
Um dos exemplos mais impressionantes foi o surgimento das chamadas nuvens de fogo, ou pyrocumulonimbus, que se formaram durante o fim de semana na região de Gironde, próxima a Bordeaux, segundo autoridades locais.
Essas nuvens surgem quando incêndios particularmente intensos geram uma coluna de calor extremo que sobe rapidamente para camadas mais frias da atmosfera, condensando-se em gigantescas nuvens de tempestade. Elas podem criar seus próprios ventos, chuva e raios, transformando incêndios em tempestades de fogo autoalimentadas, erráticas e imprevisíveis.
O fenômeno é bem documentado na Austrália, no Canadá e nos Estados Unidos — os incêndios de Los Angeles em 2025 chegaram a produzir um raro tornado de fogo (firenado) — mas permanece incomum na Europa.
O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo informou que ainda não pode confirmar se este foi o primeiro pyrocumulonimbus da França. “No entanto, se confirmado, seu desenvolvimento destacaria a intensidade excepcional do incêndio atual e as extraordinárias condições atmosféricas sob as quais ele está queimando”, disse Francesca Di Giuseppe, coordenadora de previsões de incêndios da instituição.
A escala dos incêndios também impressiona, segundo especialistas. Grandes extensões de terra foram consumidas pelas chamas na França e na Espanha, que chegaram a solicitar ajuda da União Europeia.
“Uma crise de incêndios florestais sincronizada e multinacional é algo raro na Europa”, afirmou Stefan Doerr, diretor do Centro de Pesquisa em Incêndios Florestais da Universidade de Swansea, no País de Gales.
As chamas avançaram próximas a cidades importantes, incluindo um incêndio que devastou a província montanhosa de Ávila, a oeste de Madri, e que, segundo as autoridades, já é o maior já registrado na Espanha.
“O incomum é o número atual de incêndios destrutivos: incêndios que se espalham rapidamente, sobrecarregam os bombeiros e obrigam comunidades inteiras a evacuar”, explicou Guillermo Rein, professor de ciência dos incêndios no Imperial College London.
Mais de 300 mil pessoas já foram evacuadas na França e na Espanha, embora algumas tenham começado a retornar para casa na quarta-feira.
Os incêndios florestais também se intensificaram na Turquia. Autoridades informaram que as chamas se espalharam por áreas agrícolas e florestais da província de Mugla, na costa do mar Egeu. Na vizinha Grécia, três bombeiros morreram: dois combatendo incêndios em Creta e um terceiro enfrentando um foco na região do Peloponeso, segundo a Reuters.
Especialistas afirmam que extinguir completamente incêndios dessa magnitude é praticamente impossível até que o combustível natural se esgote ou que chuvas persistentes cheguem, independentemente da quantidade de recursos mobilizados.
“Na Austrália e em partes dos Estados Unidos e do Canadá, existe uma expectativa e uma aceitação geral de incêndios florestais fora de controle”, disse Doerr. “Na Europa, ainda prevalece a ideia de que esses incêndios podem ser completamente evitados.”
Por que esses incêndios são tão graves?
Cada incêndio florestal é complexo e único, influenciado por fatores como manejo do solo, relevo e recursos de combate ao fogo. Mas cientistas apontam que as condições climáticas extremas, agravadas pelas mudanças climáticas, têm sido um dos principais motores dos incêndios europeus.
O aquecimento global está provocando oscilações cada vez mais intensas entre períodos extremamente úmidos e extremamente secos. Trata-se de um “efeito chicote”, explicou Matthew Jones, pesquisador da Escola de Ciências Ambientais da Universidade de East Anglia, na Inglaterra.
O inverno passado foi excepcionalmente chuvoso na França e na Espanha, favorecendo o crescimento acelerado da vegetação. Em seguida, o clima mudou drasticamente. Desde maio, a Europa Ocidental tem sido atingida por sucessivas ondas de calor severas, que ressecaram a paisagem.
Esse calor representou “a estalada do chicote” nesse processo, transformando a vegetação densa em combustível altamente inflamável, explicou Jones.
“Cenários dantescos”
As autoridades afirmam que o combate completo aos incêndios atuais pode levar meses, mas seus impactos permanecerão por muito mais tempo.
A fumaça produzida pelos incêndios cria céus poluídos e perigosos para a saúde. Estima-se que a poluição causada por incêndios florestais provoque mais de 100 mil mortes por ano em todo o mundo.
Há também os prejuízos econômicos. As chamas atingem áreas próximas de grandes cidades europeias, afetando destinos turísticos, regiões produtoras de vinho e importantes centros estratégicos.
Além disso, esses incêndios podem alterar profundamente a relação das pessoas com o território onde vivem, à medida que passam a conviver com a ameaça constante de incêndios incontroláveis.
Para o futuro, cientistas afirmam que devemos esperar incêndios mais frequentes e mais intensos, na Europa e em outras partes do mundo, enquanto a humanidade continuar queimando combustíveis fósseis e elevando as temperaturas globais.


