
Ainda assim, entidades dos setores de distribuição e importação de combustíveis manifestaram preocupação com o impacto da mudança nos motores sem estudos e testes técnicos anteriores, particularmente porque 15% da frota do país não têm motores flex (que rodam com gasolina ou etanol).
Na avaliação do professor Marcio D’Agosto, docente na Coppe/UFRJ, a mudança não impacta a motorização nem o ritmo de manutenções de carros fabricados no país. No entanto, ele afirma que donos de veículos importados podem sentir a diferença na hora de pisar no acelerador.
— No Brasil já há muita frota de veículos flex. Não há diferença por conta de tecnologia, mas, para os importados, sim, porque o poder calorífico do etanol é diferente — ele diz, relembrando o início da venda de veículos bicombustíveis (flex power) no início dos anos 2000 no Brasil, e a consequente popularização do modelo.
Vale frisar que o governo já estuda aumentar ainda mais os percentuais do etanol na mistura, chegando a 35%. A medida terá validade de 180 dias, com possibilidade de prorrogação, uma única vez, pelo mesmo período.
E os usados?
— Os motores dos carros importados são feitos para serem usados com a gasolina daqueles países. Os fabricantes que trazem esses carros até fazem alterações eletrônicas. Mas, com o aumento do percentual do etanol aqui, pode ser que haja perda no rendimento, já que ele tem poder calorífico menor — diz.
Percentual é bem mais baixo lá fora
Nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, o etanol também é utilizado como aditivo da gasolina, mas em percentuais bem menores do que no Brasil. Na Europa, é comum a utilização da gasolina com 5% ou 10% de teor de etanol. Nos EUA, também é usual a adição de 10% à gasolina, enquanto no Japão o teor é de 3%.
Diferentemente do impacto na alteração do etanol nos motores dos veículos de passeio, D'Agosto vê uma alteração maior em eventual mudança no percentual de biodiesel no diesel, principalmente em caminhões antigos. Isso porque o biodiesel possui características solventes e de atração de água, promovendo uma "faxina" nos sistemas de alimentação, o que demandaria manutenção maior.
Tanques de armazenamento do diesel, como em garagens e postos de combustíveis, também demandariam maior manutenção, ele diz.
Associações criticam mudanças
A Brasilcom, que representa o setor de distribuição, a Abicom (importadores), a Fecombustíveis (postos) e o SindTRR (transporte revendedor) manifestaram, em nota conjunta, preocupação com o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina sem a conclusão prévia dos estudos e testes técnicos necessários.
Segundo as entidades, a preocupação recai sobre os potenciais impactos na frota de veículos leves, já que, de acordo com as associações, cerca de 15% dos carros do país não são flex. Citam ainda efeitos em embarcações de pequeno porte e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina.
Gasto pode subir
Entre os possíveis reflexos estão alterações no desempenho, na durabilidade de componentes e nos custos de manutenção, com impacto para os usuários desses veículos.
"O aumento da mistura de etanol anidro na gasolina acima dos atuais 30% também requer a realização de testes específicos para que se determine, com segurança, a sua viabilidade", afirmaram.
Além disso, lembram que o aumento da participação do etanol exige ajustes regulatórios nas especificações da gasolina, especialmente em relação à octanagem (índice que mede a resistência do combustível à detonação prematura e influencia o desempenho do motor) e à massa específica, que corresponde à densidade do combustível.


