
Os pedreiros que trabalham com o sistema Concreto-PVC não erguem parede de bloco nem aplicam revestimento depois. Eles montam painéis ocos de plástico, que são preenchidos com concreto e permanecem na obra como acabamento final, conforme reportagem publicada pelo portal Cimento Itambé, assinada por Altair Santos.
O método é conhecido internacionalmente como Royal Building System e foi desenvolvido no Canadá. A diferença central em relação ao sistema convencional de fôrmas é que elas não são retiradas depois da concretagem, permanecendo incorporadas à construção e dispensando pintura, reboco e cerâmica.
Como o sistema funciona na prática

Depois de posicionados, os vãos internos desses painéis recebem concreto. É esse preenchimento que dá resistência estrutural ao conjunto, enquanto o plástico assume duas funções ao mesmo tempo: contém o concreto durante a cura e permanece como superfície acabada.
A mudança de rotina para quem trabalha na obra é considerável. Não há assentamento de bloco, não há aplicação de argamassa de revestimento e não há etapa de pintura, o que elimina frentes de serviço inteiras do cronograma tradicional.Sete dias para uma casa popular

O tempo de execução é o argumento que fez o sistema ganhar espaço no Brasil. Segundo a apuração, o método permite erguer uma habitação de interesse social em 7 dias.
Esse prazo se refere à construção da unidade, e a reportagem não detalha se ele inclui fundação, instalações e acabamentos complementares. O que está informado é que a empresa detentora da tecnologia no país adaptou o sistema especificamente para atender ao programa habitacional federal.
Há um dado que ajuda a dimensionar o consumo de material. Para uma residência de 56 metros quadrados, com fôrmas de 64 milímetros, são necessários aproximadamente 7,5 metros cúbicos de concreto para preencher os vãos.
O concreto precisa ser diferente
O sistema impõe exigências específicas ao concreto usado, e esse é o ponto técnico mais relevante para quem trabalha na obra.
A tecnologia exige concreto bem fluido, com abatimento de 25 centímetros ou mais. Abatimento é o ensaio que mede a consistência da mistura, e valores altos indicam material bastante fluido, capaz de escorrer e preencher espaços estreitos sem deixar vazios.
A granulometria também muda. São empregadas brita 0 ou pedrisco, agregados de menor dimensão que passam com mais facilidade pelos vãos internos dos painéis. Concreto duro não desce dentro da fôrma plástica, e falha de preenchimento em fôrma incorporada não pode ser corrigida depois, porque a superfície fica fechada.
A Associação Brasileira de Cimento Portland passou a prestar consultoria ao sistema no país, justamente para aprimorar o concreto utilizado. Como a fôrma permanece na parede, o material precisa reunir dois requisitos simultâneos: resistência mínima conforme o projeto estrutural e fluidez adequada ao preenchimento.
A variação usada no Rio Grande do Sul
Em um dos estados onde a tecnologia está mais difundida, foi adotada uma variação da mistura. No Rio Grande do Sul, tem sido empregado concreto leve com pérolas de EPS, o poliestireno expandido conhecido popularmente como isopor.
A finalidade declarada é melhorar os índices de conforto térmico e acústico da edificação. O material expandido incorporado à mistura reduz a densidade do concreto e cria uma barreira adicional à passagem de calor e de som.
Essa adaptação regional mostra algo comum em sistemas construtivos importados. A tecnologia chega com uma especificação e vai sendo ajustada conforme a realidade e a exigência de cada praça, sem que a lógica geral do método mude.
Onde o sistema já estava sendo usado
A difusão pelo território brasileiro se deu pelo programa habitacional federal. Além do Rio Grande do Sul, onde está mais consolidado, o método já era aplicado em outros 11 estados na época da apuração.
A lista inclui Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás, Bahia e Alagoas.
Além de habitação social, a apuração informa que o sistema é utilizado em casas de diversos padrões, prédios industriais, edifícios residenciais de até cinco pavimentos e construções comerciais, como escolas, hospitais e postos de combustíveis. O limite de cinco pavimentos é a fronteira declarada do método para uso em edificações verticais.
O uso em reconstrução após desastres
Um dos fatores que impulsionaram a adoção da tecnologia foi a necessidade de resposta rápida a desastres naturais.
Em São Paulo, a companhia habitacional do estado firmou parceria com a detentora da tecnologia no país para atuar na reconstrução de casas em São Luís do Paraitinga, município devastado pelas chuvas em 2010.
O sistema também foi escolhido para a construção de moradias em cidades atingidas pelas enchentes da região serrana do Rio de Janeiro, entre elas Petrópolis e Teresópolis. Segundo o arquiteto Tiago Saretta Ferrari, responsável técnico da empresa que detém a tecnologia no Brasil, já havia projetos aprovados nesses dois municípios. Velocidade de execução é justamente o que se busca em reconstrução pós-desastre, quando famílias estão desalojadas e o prazo pesa mais do que qualquer outro fator.
Desempenho térmico e acústico
A apuração informa que o sistema está adaptado às oito zonas bioclimáticas brasileiras, classificação que divide o território segundo condições de clima e orienta as exigências de desempenho das edificações.
O material também aponta que o método atinge os valores de isolamento acústico exigidos para paredes externas, internas e geminadas em unidades residenciais.
Cabe um registro sobre a citação normativa. A reportagem cita a norma de desempenho térmico de edificações de forma inconsistente, indicando ao mesmo tempo a parte 3 e a parte 2 do documento. Como não é possível determinar qual é a referência correta, reproduzo aqui apenas o conteúdo informado, sem repetir a numeração no texto.
As chuvas em São Luís do Paraitinga ocorreram em 2010, e o desastre da região serrana fluminense aconteceu em janeiro de 2011. Como a reportagem trata os projetos nessas cidades como recém-aprovados, ela é de 2011 ou período próximo.
Isso significa que os números apresentados descrevem o cenário de mais de uma década atrás. Não há qualquer informação sobre a situação atual da tecnologia no Brasil, sobre quantas unidades foram efetivamente construídas desde então nem sobre como as construções se comportaram com o tempo.
Uma obra em que o acabamento chega antes do concreto
O que torna esse sistema interessante do ponto de vista de canteiro é a inversão de ordem que ele produz. Na construção convencional, a estrutura vem primeiro e o acabamento por último, depois de meses de obra e de várias equipes diferentes passando pelo mesmo ambiente.
Aqui, a superfície final é instalada antes da concretagem, e quando o concreto cura, a parede já está pronta para uso. Elimina se a argamassa de assentamento, a de revestimento, o chapisco, a massa corrida e a pintura.
A contrapartida está na margem de erro. Fôrma incorporada não perdoa falha de preenchimento, porque não existe a etapa de desforma em que o problema apareceria a tempo de ser corrigido.


