
Aos 28 anos, Luís Antônio Taveira Mendes, filho do ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes, figura atualmente em 18 empresas, acumula R$ 11,1 milhões em inscrições na dívida ativa da União e é parte em 23 processos judiciais que somam R$ 316,9 milhões em valores de causa. Os dados constam de registros públicos da Receita Federal, da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e de tribunais consultados pela reportagem do
.
O cruzamento de informações do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) revela que nem todas as empresas foram criadas por ele. Das 18 companhias em que aparece atualmente, 12 foram constituídas com sua participação desde a abertura, enquanto seis já existiam havia anos quando ele passou a integrar seus quadros societários, assumindo cargos de diretor, administrador ou conselheiro. O padrão indica sua entrada em estruturas empresariais previamente consolidadas do Grupo Sollo.
Além das participações diretas, a reportagem identificou que Luís Antônio também mantém vínculo indireto com pelo menos outras nove empresas, por meio das holdings Sollo Participações S.A., Sollo Energia S.A., Sollo Mineração S.A. e LMX Participações Ltda., nas quais ocupa cargos de direção ou administração. Nessas empresas, seu nome não aparece como sócio direto, mas as holdings sob seu comando figuram entre os acionistas.
Luís Antônio é um dos investigados da Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal nessa quinta-feira (06.08), por determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação apura um suposto esquema de desvio e ocultação de recursos públicos relacionados ao acordo de R$ 308,1 milhões firmado entre o Governo de Mato Grosso e a operadora Oi S.A.
Também foram alvo da operação o ex-governador Mauro Mendes, a primeira-dama Virgínia Mendes, o desembargador do TJMT Ricardo Almeida, o deputado federal Fábio Garcia, Hélio Palma de Arruda Neto, Fernando Robério de Borges Garcia, Francisco de Assis da Silva Lopes e a Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso (PGE-MT).
Empresas já existiam
A empresa mais antiga em que Luís Antônio ingressou posteriormente é a Sollo Participações S.A., fundada em 16 de outubro de 2009, quando ele tinha 12 anos. Seu nome só passou a constar como diretor em 5 de dezembro de 2018, nove anos depois.
Situação semelhante ocorre na Empresa de Transmissão de Energia do Mato Grosso S.A. (ETEM), criada em 17 de fevereiro de 2010, na qual ele assumiu cadeira no conselho de administração apenas em março de 2021.
Na Greencal Extração de Minérios Ltda., fundada em 2012, Luís Antônio tornou-se administrador somente em 2024. O mesmo padrão se repete na Santo Antônio Energética SPE S.A., H2M Geração de Energia SPE Ltda. e VS Energia Ltda., empresas constituídas entre 2019 e 2022 e nas quais ele ingressou apenas em 2025.
Fundo GS Heritage
Na decisão que autorizou a Operação Heritage, Flávio Dino afirma que Luís Antônio é cotista do GS Heritage FIP, juntamente com as irmãs Maria Luíza Taveira Mendes e Ana Carolina Mendes Facures. Segundo a investigação, há suspeita de que recursos públicos tenham passado por sucessivas camadas de fundos de investimento antes de serem convertidos em patrimônio privado ligado à família do ex-governador.
Até o momento, não há condenação dos investigados, e o caso permanece em fase de investigação.
Entre as medidas cautelares impostas a Mauro Mendes, Virgínia Mendes e Luís Antônio estão o recolhimento dos passaportes, a proibição de deixar o país e a quebra dos sigilos bancário e fiscal, abrangendo movimentações financeiras entre janeiro de 2022 e julho de 2026.
Grupo Sollo
Luís Antônio preside as empresas Sollo Energia S.A. e Sollo Mineração S.A. e integra o conselho de administração da ETEM. O grupo atua principalmente nos setores de energia e mineração em Mato Grosso e em outros estados.
Nos quadros societários dessas empresas também aparecem Hélio Palma de Arruda Neto e Fernando Robério de Borges Garcia, ambos igualmente atingidos pelas medidas da Operação Heritage.
O capital social declarado das 18 empresas em que Luís Antônio possui participação direta soma aproximadamente R$ 82 milhões, segundo levantamento realizado pela reportagem.
Dívida ativa
Registros da PGFN mostram que Luís Antônio consta como corresponsável em 12 inscrições de dívida ativa da União, abertas em 2023, que totalizam R$ 11.101.193,11.
As inscrições estão classificadas como "benefício fiscal" e foram negociadas no Sistema de Parcelamento (Sispar), sem ajuizamento até o momento. Os débitos referem-se principalmente a contribuições previdenciárias e receitas vinculadas a empresas do grupo.
Processos
Consultas aos sistemas processuais mostram que Luís Antônio é parte em 23 processos distribuídos entre o TJMT, TRF-3, TJSP e STJ, que somam R$ 316.902.141,62 em valores de causa.
Entre eles está uma ação popular proposta pelo ex-governador Pedro Taques por suposto dano ao erário envolvendo empresas do Grupo Sollo. O processo, distribuído em janeiro de 2026, atribui à causa o valor de R$ 315,1 milhões.
As demais ações tratam, em sua maioria, de pedidos de indenização por danos morais, direito de imagem e litígios envolvendo empresas do grupo.
As informações desta reportagem foram obtidas por meio do cruzamento de registros públicos da Receita Federal, da PGFN, do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) e dos sistemas processuais do Judiciário. Dados pessoais protegidos, como números de CPF, foram omitidos.




