
Enquanto Cuiabá ferve com ataques políticos e pessoais, na fronteira Brasil–Bolívia o barulho é outro: motores, caminhões, patrolas e rolos compactadores anunciam que a MT-199 começa a transformar em realidade um sonho de gerações
Na semana que terminou ontem, o canteiro de obras da futura Rota Bioceânica, na rodovia MT-199, viveu mais uma sequência de avanços importantes. Na fronteira entre Brasil e Bolívia, entre San Ignacio de Velasco e Vila Bela da Santíssima Trindade, a paisagem marcada durante décadas pela poeira e pelo isolamento começa a ganhar outra aparência: terraplanagem, imprimação e capa asfáltica avançam em ritmo acelerado.

Trecho de 800 metros entre destacamento e rotatória recebe compactação durante a semana.
Enquanto na capital mato-grossense o ambiente político é dominado por ataques pessoais e disputas eleitorais envolvendo o governador Otaviano Pivetta, na fronteira oeste o clima é completamente diferente. Ali, o dia começa cedo, quando os motores dos caminhões e das máquinas da Oeste Construtora começam a roncar em direção ao canteiro de obras.

Trator gradeia a terra enquanto patrolas deslocam material e pipa cria umidade no início da rotatória.
É o barulho do trabalho.
E, para quem viveu décadas esperando por uma estrada pavimentada, talvez seja também o barulho do fim de uma longa era de promessas.

Duas patrolas, trator com grade e pipa em círculo na rotatória durante várias horas e final perfeito.
Palmarito vira centro das atenções
Durante a semana, um dos principais focos dos trabalhos foi concentrado no acesso à comunidade e ao destacamento do Grande Palmarito, além da implantação da rotatória da rodovia.

Rolos compactadores em ação na rotatória do Palmarito.
No trecho em linha reta, a execução avança com relativa facilidade. Já a rotatória exigiu habilidade, concentração e precisão das equipes da Oeste.
Enquanto um trator equipado com grade remove a terra, duas patrolas movimentam o material de um lado para o outro, fazendo o nivelamento do terreno, e um caminhão-pipa vem logo atrás, umedecendo o solo para garantir as condições necessárias para a compactação.

Dino pantaneiro e o filho Flávio no retão imprimado de 800 metros sentido rancharia.
Foram horas de movimentação contínua, seguidas pela entrada dos rolos compactadores, das equipes de laboratório e dos profissionais de topografia.
Nada é feito no improviso.

Equipe topográfica faz o desenho oficial da rotatória para imprimação.
Cada etapa precisa atingir o ponto técnico determinado antes de receber o sinal verde para a imprimação. E o trabalho da equipe topográfica é fundamental. O desenho da rotatória é rigorosamente calculado e marcado no chão com pregos e cordões, formando a referência que será seguida pelos responsáveis pela aplicação do produto.
800 metros de capa e a emoção de quem esperou décadas

Caminhão burro preto em ação na rotatória do palmarito.
Antes mesmo da conclusão da rotatória, a Oeste Construtora já havia concluído aproximadamente 800 metros de capa asfáltica no sentido de Vila Miranda e do destacamento do Palmarito.

Concluída acesso da rotatória sentido destacamento palmarito.
A cena foi acompanhada de perto por um dos pioneiros da comunidade, o popular Dino Pantaneiro, e seu filho Flávio.
Para Dino, ver as máquinas transformando a estrada de chão em uma rodovia pavimentada é mais do que uma obra de infraestrutura. É a realização de um sonho antigo.
“É muita felicidade para quem sonha há muitos anos com o momento que estamos vivendo.”
Dino faz questão de reconhecer aqueles que, segundo ele, ajudaram a transformar o sonho em realidade.
“Isso está acontecendo graças ao empenho do prefeito Dr. André Bringsken, do Pedrinho Lacerda e, principalmente, do governador Otaviano Pivetta, um desconhecido que chegou para realizar o sonho do povo fronteiriço.”
Finalmente chegou a hora da rotatória
Depois que a equipe de topografia definiu todas as coordenadas e marcou o desenho da pista, entrou em cena outra operação que exige precisão.
Nilton Cézar, ao volante do caminhão, e Benilson, na parte traseira do chamado “Burro Preto”, responsável por abrir e fechar a torneira que libera o produto da imprimação, iniciaram o trabalho.

Rotatória concluída em imagem natural.
A dificuldade estava justamente em entrar e sair da rotatória respeitando rigorosamente as linhas e a dosagem necessária do produto utilizado para impermeabilizar a base.
Foram horas de trabalho.
Em alguns momentos, o sistema automático fazia a aplicação. Em outros, quando a situação exigia maior precisão, Benilson fazia a aplicação manualmente, quase como um pintor trabalhando com pincel.
Depois de várias horas, a missão foi concluída.
A rotatória do Palmarito estava finalmente imprimada e pronta para receber a capa asfáltica.
Mais uma etapa do sonho começava a virar realidade.
Historiador sobe na leira e registra a história
A cena também chamou a atenção do professor de História Jair Macedo Teixeira, 47 anos, cuja família vive há mais de quatro décadas na comunidade do Palmarito.

No alto da leira o professor Jair Macedo capta imagens da obra para mostrar no futuro.
Ao perceber o fotógrafo Eudes Talavera no alto de uma leira de madeira registrando a obra, Jair não resistiu. Subiu também para fazer aquele que considera um registro histórico.
Do alto da estrutura, diante da nova rotatória, foi categórico:
“Isto aqui é sinal de progresso. Faço os registros porque quero, no futuro, contar como foi construída essa rodovia. É um sonho antigo de várias gerações.”
Jair não hesita quando o assunto é política. Questionado sobre suas preferências para a próxima eleição, citou Valmir Moretto para deputado estadual, Mauro Mendes para o Senado e Otaviano Pivetta para o Governo de Mato Grosso.

Rafael Campos (esq) e o engenheiro Duílio Moraes Moretto, responsável técnico pela obra.
Segundo ele, são nomes que, na sua avaliação, estão ajudando a mudar o futuro das novas gerações que vivem na fronteira.
A explicação é direta:
“A gente sempre votou, mas quase nunca recebeu progresso. Recebeu promessas.”
Uma nova geração começa a entrar para a história
Assim como o professor Jair, outros personagens começam a entrar para a história da região oeste de Mato Grosso.
É o caso do jovem engenheiro e responsável técnico pela obra, Duílio Moraes Moretto, do assistente Alan Delon e do encarregado-geral Rafael Campos, que coordena uma verdadeira tropa de mais de 100 colaboradores, todos sintonizados entre si por rádio.
A comunicação permanente entre as equipes permite que máquinas, caminhões, laboratório, topografia e trabalhadores atuem de maneira coordenada, transformando o enorme canteiro de obras em uma operação sincronizada.
Hoje, o trabalho continua.
Mais 800 metros de capa asfáltica estão previstos para avançar sobre o trecho, ampliando para perto de sete quilômetros o volume de pavimento já concluído pela Oeste.
E é justamente aí que a obra ganha uma dimensão política que ultrapassa o canteiro.
Durante décadas, o chamado Velho Oeste de Mato Grosso foi lembrado em discursos eleitorais, palanques e promessas de integração. Agora, a fronteira começa a assistir à chegada concreta do asfalto.
Enquanto alguns políticos tentam conquistar votos no discurso, as máquinas conquistam quilômetros de estrada.
Enquanto em Cuiabá a política ferve, na fronteira o asfalto avança.
E, quilômetro após quilômetro, uma nova história começa a ser registrada na MT-199.
Para quem viveu décadas de espera, talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo:
o fim da era das promessas e o começo da era da estrada.
Confira algumas imagens capturadas pelo fotógrafo e cameraman Eudes Talavera


