
Nove dias depois de entrar para a história do atletismo mundial, Alison dos Santos, o Piu, conquistou neste sábado (5), em Bruxelas, na Bélgica, o terceiro título dele na Diamond League, principal circuito anual do atletismo mundial.
O brasileiro venceu a final dos 400 metros com barreiras com 46s70. Foi uma vitória com folga: o norte-americano Trevor Bassitt chegou em segundo, com 48s03, e outro brasileiro, Matheus Lima, completou o pódio, com 48s18. Piu ainda quebrou um recorde de 40 anos da etapa de Bruxelas.
A conquista vem logo depois de uma das maiores corridas da história do atletismo brasileiro. No último dia 27, em Zurique, Piu correu os 400 metros com barreiras em 45s80 e quebrou o recorde mundial que pertencia ao norueguês Karsten Warholm desde os Jogos Olímpicos de Tóquio. A marca anterior era de 45s94.Terceiro diamante
Com a vitória na Bélgica, Piu chegou ao terceiro troféu da Diamond League. Ele já tinha sido campeão em 2022 e 2024. Aos 26 anos, o brasileiro também é campeão mundial de 2022 e duas vezes medalhista olímpico de bronze, em Tóquio e Paris.
E a superioridade nesta temporada chama a atenção. Antes de quebrar o recorde mundial, Alison já havia vencido Warholm em diferentes encontros da Diamond League em 2026. Em Zurique, fez o que nenhum outro homem havia conseguido: percorreu os 400 metros com dez barreiras abaixo dos 45s94 do norueguês.
Mas a história do brasileiro que hoje corre mais rápido do que qualquer outro homem começou muito longe dos grandes estádios europeus, numa vida duraQueimaduras quando ainda era bebê
Alison nasceu em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, e tinha apenas 10 meses quando sofreu um grave acidente doméstico na casa da avó, Geni.
Ela preparava óleo quente para fritar peixe quando a panela virou sobre o bebê. A avó tentou protegê-lo e também sofreu queimaduras. Alison teve queimaduras de terceiro grau na cabeça e em outras partes do corpo e passou meses hospitalizado. Ele chegou a comemorar o aniversário de um ano ainda no hospital.
As cicatrizes ficaram, principalmente na cabeça, testa, rosto e braço. Durante anos, Alison usava boné para escondê-las. A aparência também mexeu com o menino. Antes de se transformar no Piu sorridente e brincalhão conhecido nas pistas, Alison era extremamente tímido. Tinha vergonha das marcas e dificuldade até para chegar sozinho a um ambiente novo.
Infância humilde
A família também tinha pouco dinheiro. Alison é o caçula de quatro irmãos e passou parte da infância com a avó. A mãe, Sueli, precisava dividir os cuidados da família e de uma das filhas, que tem hidrocefalia.
Anos depois, Sueli contou que a situação financeira era tão difícil que, quando o filho começou a se destacar e foi contratado pelo Esporte Clube Pinheiros, a casa da família estava “caindo aos pedaços”.
Os tênis usados nos treinos também precisavam durar o máximo possível.
Começou a correr na adolescência
O atletismo entrou na vida dele aos 14 anos. Piu praticava judô e demorou meses para aceitar o convite de um projeto social de São Joaquim da Barra. Só foi porque um amigo, Alexandre Inocêncio, já treinava lá e ajudou o garoto tímido a perder a vergonha.
A estrutura estava longe daquela que ele encontraria anos depois no circuito internacional. A pista era de granulado, havia momentos em que faltava água e os calçados eram usados até não aguentarem mais. Mesmo assim, os resultados começaram a aparecer e Piu foi levado para o Pinheiros, em São Paulo.
Agora, aos 26 anos, aquele menino que escondia as cicatrizes debaixo do boné ser mostra com orgulho. É o atual recordista mundial dos 400 metros com barreiras e acaba de colocar o terceiro troféu da Diamond League na coleção.



