
A disputa pelas duas vagas de Mato Grosso ao Senado entra em sua fase decisiva sob forte temperatura política. E, no centro do confronto, dois ex-governadores voltam a medir forças: Mauro Mendes e Pedro Taques.
Nas redes sociais, Mauro tem feito críticas duras ao governo de Taques, classificando o ex-governador como “recordista” em diversos episódios de sua administração.
Taques, por sua vez, responde aos ataques e também passou a explorar questões relacionadas ao período em que Mauro esteve à frente do Governo de Mato Grosso.
O confronto já chegou à Justiça Eleitoral. Decisões recentes determinaram a retirada de conteúdos e aplicaram penalidades em razão de acusações consideradas além dos limites da crítica política.
O episódio deixa uma lição importante para a campanha: investigação não é condenação, acusação não é prova e crítica política não pode ser confundida com afirmação de crime.
Quando o passado vira arma eleitoral
Pedro Taques governou Mato Grosso entre 2015 e 2018. Depois de deixar o Palácio Paiaguás, retomou suas atividades acadêmicas e jurídicas.
Mauro Mendes comandou o Estado por sete anos e agora disputa uma das cadeiras de Mato Grosso no Senado.
Ao transformar o governo anterior em um dos principais alvos de sua campanha, Mauro pode estar abrindo espaço para uma comparação inevitável entre as duas administrações.
Quem pergunta sobre o passado do adversário também precisa estar preparado para responder sobre o próprio.
E é justamente aí que o debate começa a ficar mais delicado.
PF, caso Oi e o mercúrio
A Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal em agosto, colocou Mauro Mendes entre os alvos de medidas judiciais em uma investigação relacionada a um acordo envolvendo o Governo de Mato Grosso e uma empresa de telefonia.
Paralelamente, voltou ao noticiário o caso envolvendo mercúrio e atividades de garimpo, tema relacionado à Operação Hermes HG. Mauro aparece como investigado nesse contexto, enquanto sua defesa sustenta que ele deixou de ser sócio das empresas mencionadas na investigação há anos.
É fundamental destacar: não se trata de condenação. São investigações e questionamentos que precisam seguir seu curso dentro da lei, com direito de defesa e presunção de inocência.
Também não há confirmação de que Mauro Mendes será preso ou de que exista uma ordem de prisão contra ele.
E Flávio Dino?
O ministro Flávio Dino também passou a ser mencionado no debate político em razão de decisões relacionadas à atuação da Polícia Federal e de processos que tramitam no Supremo Tribunal Federal.
Mas uma coisa precisa ficar clara: não há base para afirmar que Dino esteja preparando ou tenha determinado qualquer prisão contra Mauro Mendes.
Antecipar esse tipo de conclusão seria transformar uma hipótese em fato.
E jornalismo responsável não pode fazer isso.
O eleitor não precisa de tutor
Mato Grosso já viveu diferentes governos e conhece seus políticos.
O eleitor não precisa que Mauro diga quem foi o pior governador.
Também não precisa que Taques diga quem foi o pior.
Ele pode ouvir os dois.
Pode consultar documentos.
Pode acompanhar as decisões da Justiça.
Pode observar as obras, os números, as promessas e as explicações.
E pode decidir sozinho.
Porque, na política, quem coloca o passado do adversário sob a lupa precisa estar preparado para que o eleitor coloque o seu próprio passado sob a mesma lupa.
Talvez seja justamente aí que esteja a arapuca.
Ao transformar Pedro Taques em personagem central de seus ataques, Mauro pode acabar estimulando o eleitor a fazer aquilo que qualquer candidato deveria esperar em uma democracia: comparar, questionar e tirar suas próprias conclusões.
No fim, não será Mauro Mendes quem decidirá o resultado.
Nem Pedro Taques.
Será o eleitor.
E talvez a grande pergunta desta eleição seja justamente esta:
Se é legítimo cobrar explicações do adversário, por que não cobrar explicações de quem agora pede novamente a confiança dos mato-grossenses?
Porque, na política, quem aponta a lupa para o adversário precisa estar preparado para viver sob a luz da própria lupa.
E, quando a campanha esquenta, fica apenas a provocação:


