
Do alto de seus 104 anos, Zoraide de Deus Mota não vê o mundo sozinha nem na hora de bater um recorde mundial. Neste ano, ela deu as mãos às suas duas irmãs Levita de Deus Nunes, de 109 anos, e Zulina de Deus Nunes, de 103, para receber o título do Guinness World Records de “trio de irmãos vivos mais longevo do mundo”. O fato de três mulheres centenárias, lúcidas, pertencerem à mesma família reforça a hipótese de que a herança genética tenha papel importante na longevidade. A mãe das três irmãs, Jovelina de Deus Nunes, também viveu até os 100 anos, bem como uma tia delas. A família despertou o interesse de cientistas que investigam os fatores relacionados ao envelhecimento saudável e virou objeto de pesquisa conduzida pelo Projeto DNA Longevo, da USP.
A história das irmãs contada aqui inaugura a minissérie “Vidas Longas” que será publicada no EXTRA em quatro episódios, de hoje até quarta-feira. Nas páginas, falaremos sobre vários aspectos que envolvem a longevidade: dicas de saúde e cuidado, economia, curiosidades e, claro, histórias de vida.
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Acida de tudo, porém, o segredo da vida longa, para dona Zoraide, é estar bem acompanhada:
— Ter a família unida faz diferença na vida de uma pessoa. Desde pequena sempre tive apoio dos pais para tudo e mantive o contato com os irmãos. E assim continuo até hoje com filhos, netos e bisnetos. Família é tudo.
A trajetória das três é marcada pelo trabalho constante e pelo apoio mútuo. Levita, a mais velha, passou boa parte da juventude cuidando da família na zona rural e, mais tarde, trabalhou por 12 anos na Rede Globo. Zoraide iniciou a carreira como professora rural e, no Rio, tornou-se enfermeira. Já Zulina dedicou-se aos trabalhos manuais e à costura, atividades que garantiram o sustento de seus seis filhos.
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Na metade do século passado, as três voltaram a viver na mesma cidade, fortalecendo o vínculo. Zoraide teve cinco filhos com Enéas Alves da Mota, de quem se divorciou em 1975. Ao longo da vida, sofreu perdas profundas, incluindo a morte de dois de seus filhos. Hoje, vive com a filha Ângela, e tem 9 netos e 13 bisnetos.
“Convivo com a Dona Zoraide há quase 7 anos e desde o início senti afeição grande pelo jeito doce que ela tem. Mulher guerreira, sempre exerceu sua profissão e criou os filhos com dedicação. Aprendi com ela a levar a vida com leveza e sem exageros. Ela ama viajar, jogar buraco com as amigas, sair para beber um bom vinho, comemorar os aniversários, ama observar conversas e contribuir no papo. Ela não pensa no ontem, e sim o que fará no dia seguinte”, elogia Jéssica Carrocino, namorada de Lucas Guerra, bisneto de Zoraide.
‘Chama atenção a capacidade de seguir’
O Projeto DNA Longevo, da USP, estuda o trio de irmãs e outros mapeados pela organização Longeviquest, referência no mapeamento de supercentenários pelo mundo. Os cientistas acreditam que podem encontrar os ‘genes da longevidade’.
— A gente quer descobrir o que esses genes fazem, como eles protegem. Assim poderemos ajudar as pessoas que não tiveram a sorte de vir premiadas. No futuro, a gente imagina que vai poder alterar genes para que se transformem em ‘genes da longevidade’ — resume Mayana Zatz, professora da USP responsável pelo projeto: — Ainda estamos analisando os dados e fatores biológicos responsáveis pela proteção. Continuamos a recrutar novas centenárias. Já temos 220 coletadas e queremos chegar a 500. Quanto maior o número melhor será a identificação das variantes ‘protetoras’.
Segundo Mayana, pesquisa publicada na revista Science estima que a contribuição genética para a longevidade é de cerca 55%. Mas a herança genética é apenas um dos ingredientes da receita da vida longa.
— Essas pessoas costumam ter histórias de vida marcadas por uma boa alimentação desde a infância, por uma convivência familiar forte, pela presença da fé e por uma vida de muito trabalho. Também chama atenção a capacidade de enfrentar as dificuldades e seguir em frente — resume a pesquisadora da Longeviquest Iara Souza: — Nosso principal objetivo é verificar a idade real e construir uma base de informações rigorosamente verificadas para ajudar cientistas em estudos sobre longevidade. Buscamos transformar esse processo em um tributo à pessoa, à família e à sociedade.


