EUA anunciam plano para exportação de etanol e veem Brasil como "incógnita"

Órgão americano aponta expansão da produção brasileira e do consumo interno como fatores para as exportações em 2026

O USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) anunciou nesta quarta-feira (16) um plano com medidas para ampliar o acesso do etanol americano a mercados internacionais e abrir novas oportunidades comerciais para os produtores rurais do país. 

A estratégia estabelece quatro frentes de atuação: aumentar a mistura de etanol nos combustíveis rodoviários, reduzir restrições aos biocombustíveis produzidos a partir de culturas agrícolas, alcançar mercados ainda pouco explorados e ampliar a atuação dos EUA em organizações internacionais.

No relatório que acompanha o anúncio, o órgão aponta o Brasil como uma das principais variáveis para as exportações americanas em 2026, diante do crescimento da produção brasileira de etanol de milho e da demanda doméstica pelo biocombustível.

O documento destaca que os Estados Unidos exportaram um recorde de 8,4 bilhões de litros de etanol em 2025, com receita de US$ 4,7 bilhões. O resultado foi o segundo recorde anual consecutivo, após os embarques de 7,4 bilhões de litros, avaliados em US$ 4,3 bilhões, em 2024.

Segundo o USDA, o desempenho foi impulsionado pelo aumento da demanda global por etanol e pela redução da concorrência brasileira. O Brasil, segundo maior exportador mundial do biocombustível, teve menor disponibilidade de produto para exportação nos últimos dois anos, em meio ao avanço do consumo doméstico.

A participação americana nas exportações globais de etanol passou de 48% na média entre 2020 e 2023 para 64% em 2025. A fatia brasileira recuou de 23% para 12% no mesmo intervalo. Em volume, o Brasil exportou 955 milhões de litros a menos em 2025 do que em 2023, enquanto os embarques americanos cresceram 3 bilhões de litros no período.

Brasil como incógnita

Para o USDA, o Brasil é a “principal incógnita do lado da oferta para o mercado internacional de etanol” em 2026. Caso o consumo doméstico continue crescendo mais rapidamente que a produção, os Estados Unidos poderão ampliar sua participação nas exportações globais. Se, por outro lado, os ganhos de produção de etanol de milho e de cana superarem o avanço da demanda interna, o país poderá recuperar parte do mercado perdido nos últimos anos.

O relatório destaca a expansão da produção brasileira de etanol de milho. Segundo estimativas da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) citadas pelo USDA, o biocombustível produzido a partir do cereal passou de cerca de 5% da produção total brasileira na safra 2019/20 para mais de 25% em 2025/26.

Com esse crescimento, a produção brasileira de etanol atingiu recordes em cada um dos últimos três anos, segundo o documento. O USDA cita ainda uma previsão do Rabobank, de janeiro de 2026, de que a capacidade de produção de etanol de milho no Brasil deverá aumentar em mais 3 bilhões de litros até o fim deste ano.

A expansão da oferta pode elevar o volume disponível para exportação, mas o efeito dependerá do ritmo de crescimento do consumo interno. “O Brasil poderá recuperar a participação no mercado de exportação perdida nos últimos anos”, diz o relatório, em tradução livre, ao descrever esse cenário. 

Historicamente, a produção brasileira de etanol esteve concentrada na cana-de-açúcar, com uma safra que ocorre entre abril e novembro. A disponibilidade de matéria-prima costuma diminuir nos meses anteriores à colheita seguinte, entre dezembro e março, período em que o etanol tende a ficar mais caro e menos disponível. Além disso, a produção varia conforme o tamanho da safra e a rentabilidade relativa entre açúcar e etanol. 

O avanço do milho, por sua vez, tem ampliado a capacidade produtiva do país, segundo o USDA.

Apesar do aumento da produção, a demanda doméstica brasileira absorveu uma parcela maior do etanol produzido no país nos últimos dois anos, limitando a oferta para exportação e elevando os preços brasileiros em relação aos americanos.

O USDA atribui esse movimento ao aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina, à competitividade do etanol hidratado em relação à gasolina e ao crescimento do consumo de combustíveis.

O órgão também destaca a preferência dos consumidores brasileiros pelo etanol hidratado quando seu preço corresponde a menos de 70% do valor da gasolina C. Durante quase todo o período de 2024 e 2025, a relação média nacional de preços ficou abaixo desse patamar, criando incentivo econômico para o abastecimento com etanol hidratado.

Além disso, o consumo brasileiro de gasolina cresceu 3% em 2024 e novamente em 2025, segundo estimativas da IEA (Agência Internacional de Energia). Como o etanol representa uma parcela do mercado de combustíveis, o crescimento da demanda por gasolina também contribuiu para elevar o consumo do biocombustível.

O USDA ressalta que os Estados Unidos não produzem nem exportam etanol hidratado, fornecendo apenas etanol anidro para mistura à gasolina. Por isso, a demanda brasileira por etanol importado tende a ser maior quando a relação de preços favorece o consumo de gasolina C, e menor quando o hidratado é mais competitivo.

Exportação limitada

O relatório também aponta os preços elevados da energia, em meio ao conflito no Oriente Médio e ao fechamento do Estreito de Ormuz, como fatores que podem alterar o mercado global de biocombustíveis em 2026.

Em resposta ao cenário de combustíveis mais caros, países anunciaram planos de elevar as misturas obrigatórias de biocombustíveis ou antecipar aumentos já previstos.