Psicóloga explica limites entre devoção e surto religioso: “A fé não é, por si só, um sinal de alerta”

Essas experiências, por si só, não indicam qualquer problema de saúde mental.

A fé faz parte da vida de milhões de pessoas e pode se manifestar de diferentes formas, como orações, jejuns, participação em cultos, missas, rituais e outras práticas religiosas. Essas experiências, por si só, não indicam qualquer problema de saúde mental.

A atenção deve se voltar para outro ponto: quando uma mudança significativa no comportamento começa a causar sofrimento, comprometer a rotina, afetar relacionamentos, reduzir a autonomia ou dificultar a percepção da realidade.

A expressão “surto religioso” é bastante utilizada no cotidiano, mas não representa um diagnóstico médico ou psicológico. Em alguns episódios psicóticos, entretanto, a pessoa pode apresentar delírios e alucinações com conteúdo religioso. Ela pode, por exemplo, acreditar que recebeu uma missão divina exclusiva, ouvir vozes que considera mensagens sobrenaturais ou interpretar acontecimentos comuns como sinais direcionados especialmente a ela.

Nessas situações, o aspecto religioso da experiência não é suficiente para determinar se existe um transtorno. Profissionais de saúde precisam observar o conjunto de sintomas, as mudanças em relação ao comportamento habitual e os impactos provocados na vida da pessoa.

De acordo com o National Institute of Mental Health (NIMH), a psicose está relacionada a algum grau de perda de contato com a realidade e pode envolver delírios, alucinações e alterações na forma de pensar e perceber o ambiente.

A psicóloga clínica Aime Alana Carvalho (CRP 18/06895), que trabalha com a abordagem Fenomenológico-Existencial, destaca que uma experiência religiosa intensa não deve ser automaticamente confundida com doença.

“Ideias e experiências religiosas podem surgir em diferentes condições psicológicas e psiquiátricas, especialmente em períodos de crise, mas, isoladamente, não caracterizam um transtorno. Por isso, é necessário acolher o paciente e explorar cuidadosamente sua história, as mudanças em sua rotina, seus vínculos e os demais aspectos de sua experiência de vida.”

Quando a fé deixa de ser apenas uma prática religiosa?

Uma pessoa pode ter uma rotina intensa de oração, participar frequentemente de atividades religiosas, fazer jejuns ou possuir convicções espirituais profundas sem apresentar qualquer transtorno mental.

Por isso, uma avaliação adequada precisa levar em consideração o contexto cultural, religioso e familiar do indivíduo. Também é importante entender como aquela crença é vivenciada e se corresponde às práticas compartilhadas por sua comunidade.

O sinal de alerta aparece principalmente quando ocorre uma ruptura significativa no funcionamento habitual da pessoa.

Abandonar repentinamente o trabalho ou os estudos, afastar-se de familiares e amigos, deixar de cuidar da própria higiene, passar várias noites sem dormir ou apresentar uma mudança acentuada na forma de falar e agir são situações que merecem atenção.

Também é necessário observar quando determinadas crenças passam a controlar completamente a rotina ou quando a pessoa começa a adotar comportamentos que podem colocar sua própria segurança ou a de terceiros em risco.

Para Aime Alana Carvalho, a questão principal não está na intensidade da fé, mas nas consequências que determinadas experiências provocam no funcionamento da pessoa.

“A fé não é, por si só, um sinal de alerta. O alerta está nas mudanças abruptas no modo de existir e nos riscos que elas podem trazer para o paciente.”

A psicóloga explica que algumas perguntas podem ajudar a identificar situações que precisam de maior atenção.

“Enquanto psicóloga, sugiro observar e investigar o conteúdo dessas experiências: as supostas ordens divinas envolvem violência contra alguém ou a si mesmo? Há orientação para abandonar tratamentos? A pessoa sente-se perseguida espiritualmente? Tem se afastado de seus vínculos? Apresenta ideias de grandeza ou acredita possuir uma missão exclusiva e inquestionável?”

Segundo a profissional, essas questões ajudam a compreender a experiência da pessoa sem transformar automaticamente sua religiosidade em doença.

Quando procurar ajuda profissional

Nem toda experiência incomum relacionada à religião significa que alguém esteja enfrentando uma crise psicótica. Da mesma forma, sinais de sofrimento não devem ser ignorados apenas porque aparecem dentro de um contexto espiritual.

Quando existe sofrimento persistente, mesmo sem uma situação de risco imediato, a orientação é procurar acompanhamento psicológico e, quando necessário, avaliação psiquiátrica.

A situação exige atenção imediata quando aparecem alucinações, delírios, perda significativa do contato com a realidade ou comportamentos que possam representar perigo para a própria pessoa ou para terceiros.

“Diante de sinais como alucinações, delírios, perda significativa do contato com a realidade compartilhada ou comportamentos de risco para si ou para terceiros, é recomendável buscar atendimento de emergência imediatamente e não deixar a pessoa sozinha diante de um risco iminente”, orienta Aime.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também aponta que episódios psicóticos podem envolver delírios, alucinações, pensamento desorganizado e alterações importantes no comportamento.

A presença desses sintomas, porém, não significa automaticamente que a pessoa tenha esquizofrenia. Existem diferentes causas e condições associadas a episódios psicóticos, o que reforça a necessidade de uma avaliação profissional individualizada.

A exposição das crises nas redes sociais

As redes sociais também mudaram a maneira como experiências de sofrimento psíquico são compartilhadas. Situações que antes ficavam restritas à família, aos círculos religiosos ou aos consultórios passaram a ser expostas para milhares ou até milhões de pessoas.

Influenciadores e usuários comuns compartilham diagnósticos, internações, crises, processos de recuperação e experiências relacionadas à espiritualidade. Essa exposição pode contribuir para reduzir preconceitos e incentivar outras pessoas a buscar ajuda.

Por outro lado, também existe o risco de transformar momentos de extrema vulnerabilidade em conteúdo para consumo público, sujeito a julgamentos, cortes, interpretações equivocadas e viralização.

Um estudo publicado na revista Health Promotion International, com 803 participantes que haviam acompanhado relatos sobre saúde mental nas redes sociais, mostrou que 54,05% das narrativas eram de pessoas comuns, enquanto 24,03% vinham de influenciadores e 21,92% de celebridades.

Instagram, Facebook, YouTube e X apareceram entre as principais plataformas utilizadas pelos participantes para acompanhar esse tipo de conteúdo.

O caso de Andressa Urach

No Brasil, a influenciadora Andressa Urach já relatou publicamente experiências relacionadas à saúde mental, incluindo internação psiquiátrica e um episódio psicótico.

Em entrevista, ela afirmou ter recebido diagnósticos de transtorno bipolar e transtorno de personalidade borderline e também relatou conflitos envolvendo religião durante aquele período.

Ao falar sobre um episódio ocorrido em 2022, Andressa contou que estava “falando de coisas espirituais” e chegou a associar o próprio filho à figura bíblica de Isaac.

O relato, entretanto, não significa que a religiosidade seja responsável pelo surgimento de um episódio psicótico. Ele mostra apenas que referências e conteúdos religiosos podem fazer parte da experiência de uma pessoa durante uma crise.

Por isso, especialistas recomendam cautela antes de tentar diagnosticar alguém a partir de vídeos publicados na internet.

Assistir a uma live ou a alguns minutos de uma gravação não permite determinar se uma pessoa está ou não em psicose. O uso indiscriminado da expressão “surto religioso” pode acabar patologizando manifestações legítimas de fé e, ao mesmo tempo, banalizando situações que realmente exigem atendimento profissional.

Psicose pode ter diferentes causas

Os episódios psicóticos não possuem uma única causa. Segundo o NIMH, eles podem estar associados a transtornos mentais, alterações intensas do sono, determinados medicamentos, consumo de álcool ou outras drogas e diferentes condições de saúde.

Por isso, o conteúdo religioso presente na fala de uma pessoa não deve ser utilizado isoladamente para estabelecer um diagnóstico.

A avaliação deve considerar a história do indivíduo, seus sintomas, seu contexto cultural e social e as mudanças ocorridas em seu comportamento.

A OMS estima que aproximadamente 27 milhões de pessoas vivam com esquizofrenia em todo o mundo, o equivalente a cerca de uma em cada 300 pessoas. A doença pode apresentar sintomas psicóticos, mas psicose e esquizofrenia não são sinônimos.

Família pode ajudar a perceber mudanças

Familiares e pessoas próximas costumam ser importantes na identificação dos primeiros sinais de uma crise, justamente por conhecerem o comportamento habitual daquele indivíduo.

Mudanças como isolamento repentino, várias noites sem dormir, abandono de atividades, dificuldade de comunicação, medo ou desconfiança excessivos, falas desconectadas e perda do autocuidado devem ser observadas com atenção.

Isso não significa que familiares devam tentar fazer um diagnóstico por conta própria. Quando essas alterações são intensas, persistentes ou acompanhadas de risco, o mais indicado é procurar avaliação profissional.

No Brasil, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem atendimento a pessoas em sofrimento psíquico. Em situações de urgência, também é possível procurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), serviço de emergência ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo número 192.

O que realmente diferencia fé de uma possível crise?

A principal diferença não está na quantidade de vezes que uma pessoa reza, na intensidade de sua crença ou na forma como manifesta sua espiritualidade.

O ponto central está nos efeitos que essa experiência produz sobre sua vida.

Quando existe preservação da autonomia, dos vínculos, da rotina e da capacidade de lidar com a realidade compartilhada, uma prática religiosa intensa não deve ser automaticamente tratada como sinal de doença.

Já mudanças abruptas de comportamento, sofrimento intenso, perda de contato com a realidade, abandono de atividades essenciais ou comportamentos que coloquem alguém em risco exigem atenção e avaliação especializada.

Em uma época em que experiências pessoais podem alcançar milhares de pessoas pelas redes sociais, o cuidado precisa ser ainda maior. Uma manifestação incomum diante de uma câmera não é, por si só, prova de transtorno. Da mesma forma, uma crise real não deve ser tratada simplesmente como entretenimento.

Diferenciar espiritualidade de sofrimento psíquico exige contexto, escuta e avaliação profissional. O objetivo não é transformar a fé em doença, mas também não ignorar sinais que possam indicar que uma pessoa precisa de ajuda.