
O aquecimento global já deixou de ser uma ameaça futura e se tornou uma realidade no campo brasileiro, reduzindo safras, alterando ciclos produtivos e pressionando preços de alimentos. É o que alertam especialistas e estudos recentes, que reforçam: sem adaptação urgente, o país corre risco crescente de perda de produtividade e comprometimento da segurança alimentar.
Impactos já visíveis nas lavouras
Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que entre 2023 e 2024 períodos de calor intenso reduziram em cerca de 10% a produção de soja nas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste — áreas onde as temperaturas superaram em até 5 °C os registros históricos. Na safra 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) registrou queda de 12% na produção nacional de grãos em comparação ao ciclo anterior, com redução superior a 20% em culturas como arroz e feijão.
No Mato Grosso, principal estado produtor do país, o aquecimento é ainda mais evidente: dados do INMET mostram que Cuiabá registrou alta de 1,76 °C na temperatura média em menos de duas décadas, com dias de calor extremo quase dobrando no chamado "arco do agronegócio". O atraso no início das chuvas e a ocorrência de "veranicos" durante o desenvolvimento das lavouras de soja e milho segunda safra têm reduzido a produtividade esperada também para a safra 2026/27.
A pecuária não escapa: animais sob estresse térmico produzem menos leite, ganham menos peso e tornam-se mais vulneráveis a doenças. Estima-se que perdas econômicas totais para o setor agropecuário possam alcançar até R$ 14 bilhões por ano nas próximas décadas se nada for feito.
"Não dá mais para esperar", alerta pesquisador
"O cenário já está instalado. O que antes era projeção para 2040 ou 2050 está acontecendo agora. Não temos tempo de esperar por soluções de longo prazo apenas; precisamos agir no presente."
— Alexandre Nepomuceno, pesquisador da Embrapa
O especialista explica que o aumento da frequência de eventos extremos — secas prolongadas, chuvas concentradas em períodos curtos e ondas de calor — altera o calendário agrícola tradicional, tornando cada vez mais arriscado seguir com práticas que funcionavam há décadas. Estudos da Unicamp e da própria Embrapa apontam que, no pior cenário, a área apta ao cultivo de soja pode reduzir-se em até 40% até 2070, com perdas concentradas exatamente no Centro-Oeste, onde hoje se concentra a maior produção.
Caminhos para a adaptação
A resposta, segundo os especialistas, passa por três frentes simultâneas: tecnologia, práticas de campo e políticas públicas. A Embrapa já apresentou ao Ministério da Agricultura um conjunto de 163 medidas voltadas à gestão de riscos climáticos, incluindo recomendações específicas para cada cultura e região. Entre as soluções em fase avançada:
- Melhoramento genético acelerado: variedades mais resistentes ao calor e à seca, desenvolvidas inclusive com edição genética, reduzindo o tempo de lançamento de 15 para até 2 anos;
- Práticas regenerativas: plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta e cobertura permanente do solo, que retêm água e aumentam a resiliência das áreas produtivas;
- Gestão hídrica e previsão: uso de dados meteorológicos em tempo real para orientar o plantio e a colheita, com recomendações de janelas mais seguras por meio do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc);
- Ampliação do seguro rural e do crédito climático, especialmente para pequenos e médios produtores, que são os mais vulneráveis às perdas.
Responsabilidade compartilhada
"Adaptar-se não é tarefa só do produtor — é do Estado, da ciência e do mercado. O Brasil tem condições de ser referência em agricultura adaptada ao clima, mas precisa decidir agora se quer liderar ou sofrer as consequências", destaca Nepomuceno. O Plano Setorial de Adaptação à Mudança do Clima na Agropecuária (Plano ABC+) já está em implementação, mas especialistas defendem que a velocidade de ampliação das ações ainda está aquém da urgência.
Com a previsão de novos eventos extremos — incluindo El Niño atuante até meados de 2027 — a mensagem dos cientistas é clara: o tempo de adiar acabou. A capacidade de o país continuar alimentando o Brasil e o mundo depende de decisões tomadas nos próximos meses, não nos próximos anos.


