
Dados do Radar do Câncer revelam que, em Mato Grosso, 54,36% das pacientes iniciam o tratamento do câncer de mama após o prazo de 60 dias estabelecido em lei. O levantamento, que considera o período de 2024 a 2026, aponta ainda que 50,84% das pacientes já estavam em estágio avançado da doença. Outro dado que chama a atenção é que 55,95% precisaram se deslocar para fora de seus municípios para conseguir atendimento.
O mastologista Luciano Florisbelo afirma que muito se fala sobre a importância de as mulheres fazerem mamografia e ultrassonografia das mamas, mas a maioria enfrenta dificuldades para realizar os exames. Segundo o especialista, a realidade é que 75% da população depende do Sistema Único de Saúde (SUS). Os exames são solicitados, mas costuma haver demora para que a paciente consiga realizá-los e obter os resultados. Também há demora para conseguir uma consulta com um especialista, o que acaba levando a diagnósticos mais tardios.
Uma coisa é fazer uma campanha e dizer que é preciso ter um diagnóstico precoce. Outra é garantir o acesso ao exame. Conscientização sem acesso não basta. Existem mulheres que recebem um pedido de mamografia e precisam esperar meses para fazer o exame, afirma, enfatizando que, em Mato Grosso, mais da metade das pacientes receberam o diagnóstico em estágio 3 ou 4.
Presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia Regional Mato Grosso, Luis Fernando Corrêa de Barros confirma que o diagnóstico precoce do câncer de mama é fundamental, pois aumenta consideravelmente as chances de cura, que podem chegar a 98%.
O mastologista pondera que o diagnóstico precoce é realizado por meio da mamografia e o ideal é realizar o exame anualmente, dos 40 aos 74 anos. A mamografia é o único exame que diminui a mortalidade por câncer de mama. Por isso, ela é fundamental para diagnosticar neoplasias em estágios mais precoces. Em alguns casos, pode ser necessário fazer ultrassonografia e, raramente, na minoria dos casos, ressonância magnética, afirma.
Demora no diagnóstico
Presidente da Associação de Trabalhadores Voluntários contra o Câncer de Mama em Mato Grosso (MTmamma), Karen Mathias afirma que as pacientes enfrentam um gargalo muito crítico em uma das etapas mais sensíveis da rede estadual: a confirmação do diagnóstico por meio da biópsia e a liberação do resultado histopatológico. Sem esse laudo, a paciente não entra na fila da oncologia, o que aumenta o tempo de espera.
Segundo Karen, o diagnóstico tardio tem um custo elevado para o Sistema Único de Saúde, pois exige tratamentos de alta complexidade, mais caros e prolongados. Para a paciente, a demora reduz as chances de retorno à vida funcional e produtiva. Karen reforça que, no câncer de mama, o tempo é um dos principais fatores prognósticos.
Quando o tumor é descoberto nos estágios iniciais, 1 ou 2, a chance de cura ultrapassa 90%, com tratamentos menos agressivos e cirurgias mais conservadoras. Quando a paciente chega à oncologia em estágio avançado, a probabilidade de cura cai consideravelmente e o tratamento se torna mais mutilante. Se a doença for descoberta muito tarde, às vezes é necessário fazer a mastectomia total, explica.
A presidente da MTmamma ressalta que a lei estabelece que o primeiro tratamento contra o câncer deve ser iniciado em até 60 dias após a emissão do laudo anatomopatológico. Na prática, porém, o cumprimento desse prazo enfrenta vários entraves. Um deles é que a contagem só começa quando a paciente tem o laudo da biópsia em mãos. Entretanto, a demora para conseguir agendar a biópsia e aguardar a liberação do resultado pode levar meses.
Quando finalmente recebe o diagnóstico, a paciente esbarra no gargalo da regulação, que envolve conseguir uma vaga para a primeira consulta, agendar a cirurgia ou iniciar o tratamento. O descumprimento do prazo não ocorre por falta de norma legal, mas pelo descompasso entre a demanda e a capacidade operacional das redes credenciadas, comenta. 8 meses de espera Moradora de Várzea Grande, Graciele Brito, de 38 anos, relata as dificuldades que enfrentou até começar o tratamento do câncer de mama. Ela descobriu um nódulo ao se tocar durante o banho, no autoexame, e procurou imediatamente um clínico-geral no posto de saúde do bairro.
Após um exame de ultrassonografia apontar alta suspeita de câncer, foi encaminhada ao mastologista no Postão de Várzea Grande, que indicou a realização de uma biópsia. Dois anos depois, Graciele ainda não havia sido chamada para fazer o exame e decidiu custeá-lo do próprio bolso. Em 25 de setembro de 2024, veio a confirmação do carcinoma invasivo, um tipo de câncer de mama.
A paciente iniciou o tratamento em 30 de maio de 2025, com uma cirurgia de mastectomia bilateral, reconstrução imediata e maisamento axilar. Logo após a cirurgia, foi constatada metástase no linfonodo, e ela iniciou a quimioterapia em agosto de 2025. Foram oito meses desde a descoberta até eu conseguir iniciar o tratamento contra o câncer. Foi uma demora muito grande. Se eu não tivesse pagado pelo exame, morreria sem saber que estava com câncer, conta Graciele. Rayane Júlia Nascimento, de 30 anos, descobriu o câncer aos 27, também ao se tocar durante o banho. Ela decidiu fazer uma ultrassonografia particular por conhecer a demora no SUS.
Foram detectados 11 nódulos de formato irregular, classificados na categoria BI-RADS 4, considerada suspeita para câncer. Um mês depois, veio a confirmação do carcinoma triplo-negativo. Rayane fez ressonância magnética, tomografia, cintilografia óssea e ultrassonografia das mamas para dar início ao tratamento e à corrida contra o tempo. O câncer não espera.
Optei por fazer vaquinhas e paguei esses exames para dar início ao meu tratamento, relata. A paciente conta que chegou a protocolar os pedidos de exames no SUS, mas a autorização só veio mais de 100 dias depois. Faço acompanhamento a cada quatro meses. Mas o SUS não me fornece os exames de controle de que preciso periodicamente.
São três tomografias - da pelve, do abdômen e do tórax -, cintilografia óssea, ressonância magnética, ultrassonografia das mamas e exames de sangue. Se protocolar os pedidos no SUS, nunca consigo fazer tudo de quatro em quatro meses. Tenho que optar por pagar na rede privada, porque geralmente são seis a sete meses para liberar os exames, afirma.


