PARAGUAI: CRISE BANCÁRIA DERRUBA PRESIDENTE E NOVO GOVERNO PROMETE CORTAR DESPERDÍCIOS

Pedro Alliana assume o comando do país após crise envolvendo o Ueno Bank, promete ressarcir poupadores e exige prestação de contas diária dos ministros.

O Paraguai vive um dos momentos mais delicados de sua história política recente. A crise envolvendo o Ueno Bank, instituição financeira digital que chegou a atender aproximadamente 3 milhões de paraguaios, provocou uma turbulência no sistema financeiro e culminou na saída do presidente Santiago Peña.

O vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência da República na sexta-feira (6), com a missão de administrar uma crise que ultrapassou os limites do mercado financeiro e atingiu diretamente a confiança da população nas instituições públicas.

Uma das primeiras medidas anunciadas pelo novo chefe do Executivo é encaminhar ao Congresso um projeto de racionalização dos gastos públicos, com o objetivo de eliminar despesas supérfluas e direcionar recursos para áreas essenciais, especialmente saúde, educação e assistência aos setores mais vulneráveis.

Alliana também mandou um recado direto aos integrantes do governo: os ministros deverão apresentar resultados e prestar contas diariamente. Segundo o novo presidente, não há mais espaço para desculpas ou promessas sem resultados concretos.

O PREÇO DA CRISE

O episódio ganhou proporções políticas depois que o Banco Central do Paraguai determinou a liquidação do Ueno Bank, após identificar graves problemas nos indicadores de solvência da instituição.

A situação provocou questionamentos sobre a fiscalização bancária e os vínculos empresariais que Santiago Peña manteve com o grupo controlador da instituição até março de 2025.

O caso terminou com a saída de Peña, em meio à pressão política e às acusações relacionadas à condução da crise. As responsabilidades individuais deverão ser apuradas pelas autoridades competentes.

A dimensão do problema impressiona: aproximadamente 3 milhões de paraguaios mantinham contas na instituição, que também concentrava bilhões de reais em depósitos públicos e recursos previdenciários.

DINHEIRO DE VOLTA E PROMESSA DE TRANSPARÊNCIA

Em seu primeiro pronunciamento, Alliana prometeu que os poupadores prejudicados serão plenamente ressarcidos e determinou providências imediatas para atender prioritariamente os mais vulneráveis.

Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil neste sábado (7), mais de 1 milhão de correntistas já haviam recebido seus recursos. O novo governo também anunciou que aproximadamente 32 mil aposentados que recebiam benefícios pelo Ueno Bank terão seus pagamentos realizados por outras instituições financeiras no dia 17 de novembro.

Entretanto, ainda existem questões importantes a esclarecer, principalmente sobre os depósitos que ultrapassam os limites da garantia bancária e sobre a origem dos recursos necessários para cumprir a promessa de ressarcimento integral.

CORTAR DESPERDÍCIOS É O PRIMEIRO PASSO

A decisão de Alliana de propor uma revisão das despesas públicas pode representar uma oportunidade de reorganização administrativa. Mas o verdadeiro desafio será transformar o discurso de austeridade em resultados concretos.

Cortar privilégios, viagens desnecessárias, estruturas administrativas excessivas e despesas sem justificativa pode liberar recursos importantes para atender a população.

Por outro lado, uma reforma fiscal responsável não pode comprometer investimentos essenciais em saúde, educação, infraestrutura e proteção social.

O Paraguai precisa recuperar não apenas o dinheiro dos poupadores, mas também a credibilidade de suas instituições.

UMA LIÇÃO PARA O BRASIL?

A crise paraguaia deixa uma reflexão que ultrapassa suas fronteiras: governos não podem tratar o dinheiro público como patrimônio particular de grupos políticos ou econômicos.

A fiscalização precisa funcionar antes que os problemas se transformem em escândalos. E quando surgem irregularidades, a investigação deve alcançar todos os envolvidos, independentemente do poder político ou econômico que possuam.

O novo presidente tem uma oportunidade de demonstrar que austeridade, transparência e responsabilidade administrativa não precisam ficar restritas aos discursos de posse.

A pergunta que fica é: Pedro Alliana conseguirá transformar a crise do Ueno Bank em um marco de recuperação econômica e moral da administração pública paraguaia ou seu governo acabará repetindo os velhos vícios da política?

No Paraguai, como no Brasil, o contribuinte não quer apenas ouvir promessas de economia. Quer saber onde o dinheiro foi parar, quem será responsabilizado e quando os serviços públicos começarão a melhorar.